Um Dedo de Prosa
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UMA TARDE COM DARCY RIBEIRO

UMA TARDE COM DARCY RIBEIRO

Num certo domingo de agosto de 1987, o qual, infelizmente, não me recordo a data, em meio a um calor intenso, saí de casa sem rumo após o almoço e acabei por chegar à histórica cidade de Sabará, há poucos quilômetros da minha residência em Belo Horizonte. Ao chegar naquela cidade, estacionei o meu carro, um Fiat Uno prata, bem na praça principal, local onde ficam as ruínas da igreja inacabada construída por escravos. Ao descer do carro, me deparei com um sujeito que observava o prédio de um grupo escolar existente naquela praça. A figura me pareceu familiar. Aproximei-me e constatei que a pessoa era o professor Darcy Ribeiro. Chamei-o pelo nome, apresentei-me e perguntei-lhe o que ele fazia ali, ao que ele me respondeu: - Estou olhando essa coisa modernosa e horrorosa aqui na praça. - Referindo-se ao prédio do grupo escolar. De fato, era um prédio que destoava de todo o contexto daquela praça. Eu estava deslumbrado por encontrar ali o professor, escritor e político que eu tanto admirava e do qual havia lido algumas de suas obras como “Teoria do Brasil” e “Kadivéu”, além de trechos de outros livros quando fiz o curso de Ciências Sociais na UFMG. Antes mesmo que eu fizesse mais perguntas, ele se adiantou em me perguntar como poderia chegar à Igrejinha do Ó. Ao que respondi, com outra pergunta: - Mas o Sr. está a pé? - Sim. - respondeu-me. - Pode deixar, eu levo o Sr. até lá. - emendei orgulhoso. Mas, antes, vamos tomar uma cerveja que o calor está bravo. Saímos da praça e descemos a primeira rua à direita e, logo no meio da descida, encontramos um boteco que se encontrava bem vazio. Nos assentamos, pedimos a cerveja e iniciamos uma boa prosa de mineiro para mineiro. Primeiramente, eu quis saber como uma pessoa como ele aceitara ser secretário do então governador Newton Cardoso. (1)

Sem demonstrar nenhuma irritação com o meu inquérito, disse-me que não falaria sobre aquele assunto. Na minha miopia da época, eu não alcancei o entendimento do seu ato, mas, respeitando-o, mudamos o rumo da conversa. Ele, espontaneamente como era o seu jeito, pôs-se a contar casos de sua vida passada e recente, entre eles, de como os militares haviam concedido que ele voltasse ao Brasil para morrer, pois se encontrava com câncer no pulmão. Emendou contanto que quando estava no hospital, as pessoas que iam visitá-lo o confundiam com o seu irmão que tinha o semblante mais doente que ele. Falou muito de suas viagens, de sua vida no exílio, especialmente no Chile. A conversa foi prosseguindo, por vezes interrompida quando da passagem de alguma garota que ele olhava, e chamava para sentar à mesa conosco. Mostrava-se um paquerador implacável. Em momento algum se apresentou a alguém. A conversa seguia o seu curso através da literatura por insistência minha, que havia lido alguns de seus livros. Preocupava-me fazer uma pergunta inteligente para me sentir mais próximo da pessoa pela qual há muito nutria grande admiração. Conversamos sobre o projeto UNB, sobre o CIEPs, projeto da escola do dia inteiro que ele havia implantado no Rio e que estava prestes a fazêlo também em Minas. Naquele momento, perguntei a ele sobre aquele prédio de aço construído para ser escola lá no Bairro Primeiro de Maio. O prédio tinha por codinome “forno de assar criancinhas”. Ele sorriu, mudou de assunto e continuou naquela falação rápida e sem freio, e vez por outra comentava sobre as meninas que passavam. A prosa foi desviada para as mulheres e o assunto era, naquele instante, o que mais parecia lhe interessar. Comentou sobre as tantas mulheres bonitas que o Brasil tinha e terminou por confessar das senhoras que viviam atrás dele no Rio de Janeiro, querendo adotá-lo e tomar conta dele, ao que ele sempre recusava.

A tarde ficou mais fresca, o bar ganhou movimento e as pessoas o descobriram ali, anonimamente assentado com um desconhecido, no caso eu, quem, certamente, no imaginário das pessoas, seria o seu motorista ou um de seus assessores. Informado sobre a ilustre figura dentro de seu estabelecimento, o dono do bar mandou chamar o prefeito da cidade, do qual eu não sabia e continuo sem saber o nome. Provavelmente o professor Darcy também não sabia. Percebendo o movimento, cutucou-me, educadamente, com o pé por baixo da mesa e me disse para pedir a conta. Paguei e saímos, contrariando o dono do bar que queria fazer uma média com o prefeito. Entramos no carro e fomos para a Igrejinha do Ó. Chegando lá, professor Darcy Ribeiro deu uma aula sobre as pinturas daquela igreja. Entrou em detalhes das pinturas feitas pelos artistas portugueses da região Macao. Discorreu também sobre a arquitetura das igrejas mineiras, sobre os seus mestres e, num ato de molecagem e humor refinado, começou a brincar com os guias turísticos adolescentes que vieram ao nosso encontro para nos contar a história daquela igreja. A todo o momento, Darcy os interrompia, fazendo-os a voltar ao início da história decorada. O céu trazia os sinais do fim do dia e decidimos voltar a Belo Horizonte. Claro, ele viria comigo. Assim fizemos. Dentro do carro, o assunto migrou para a música brasileira e, ao saber da minha paixão pela bossa nova e pelo samba, começamos a cantar especialmente músicas de Antônio Carlos Brasileiro Jobim e Vinícius de Moraes, entre elas “Chega de Saudades”, “A felicidade”, “Samba do Avião” e “Garota de Ipanema”. Chegamos a Belo Horizonte onde o deixei em frente ao prédio que ele morava, na Rua Espírito Santo. Trocamos telefones com a promessa de nos encontrarmos para irmos juntos a Ouro Preto numa outra ocasião, o que nunca aconteceu. Ele nem ficou muito tempo em Minas. Em setembro do mesmo ano, perdeu as esperanças no sonho de construir mais escolas, desistiu de continuar como secretário do Newton Cardoso, por entender que o governo estava apenas fazendo jogo de cena ao contratá-lo para viabilizar a construção de mil CIEPs em toda Minas Gerais. Ficou-me na lembrança aquela tarde agradável e surpreendente e cresceu mais ainda a minha admiração ao saber que aquela figura histórica tão importante havia ido até a rodoviária de Belo Horizonte, anonimamente, embarcado num ônibus com destino à Sabará para visitar a igrejinha do Ó, numa tarde quente de um domingo qualquer de agosto. Sorte a minha de ter tido a mesma ideia de visitar Sabará naquele dia.

1. “Em maio de 1987, convidado por governador Newton Cardoso, do PMDB, Darcy Ribeiro assumiu a secretaria extraordinária de Desenvolvimento Social de Minas Gerais. Ao ser empossado no cargo, declarou que a sua principal meta era a construção de mil CIEPs em todo o estado, ao longo dos quatro anos do governo. Em setembro seguinte, no entanto, Darcy abandonou o cargo, acusando o governo mineiro de não levar a sério o programa de instalação dos CIEPs.” - Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro pós 1930. Volume V . Fundação Getúlio Vargas – Coordenação de Alzira Alves de Abreu e outros. Edição 2001. Para saber mais sobre Darcy Ribeiro, visite o site: www.fundar.org.br

17 / Out / 2019
Osias Ribeiro Neves

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