Danilo dos Santos Pereira
Casamento de pobre é assim mesmo. Apesar de seus minguados recursos por causa da costumeira falta de verba, não deixa de ser divertido. Existem casamentos de pobres assumidamente assumidos, em que a frase “os noivos receberão os cumprimentos na Igreja” é irreversivelmente verdadeira e como conseqüência a gente tem de dar uma esticada até o boteco mais próximo a fim de tomar umas e outras como é de nosso direito e vontade.
Duro em casamento de pobre é ser o pobre um duro e os incautos, também conhecidos pela alcunha de “convidados”, após comerem salgadinhos frios e beber cerveja quente, se virem obrigados a comprar os lotes mais caros do pedaço, na verdade pedaços da gravata do noivo. Dizem que é tradição, que o dinheiro arrecadado é para viagem de lua de mel etc. e tal. Tudo bem, quem tá na chuva é mesmo pra se molhar, principalmente se não tiver guarda-chuva. Mas, que aqui ninguém nos ouça, a gente paga pelo pedaço de gravata com um sorriso amarelo e depois vai embora ainda mais duro do que chegou. O melhor mesmo em tais casos é ser um penetra, porque o penetra não compra caríssimos pedaços de gravata barata de noivo pobre, não tem compromisso com ninguém e vai embora quando bem lhe apetece, geralmente feliz e palitando os dentes.
Dia desses recebi um convite de casamento. Abri, era o casamento da Marieta. Não me lembro mais o nome do bairro, só sei que era longe pra dedéu. Figura humana das melhores e velha amiga meio sumida mas sempre querida, a Marieta ficara conhecendo o futuro marido em uma funerária onde ele trabalhava como maquilador de defuntos. Pois é, a Marieta cuidava do enterro de uma provecta tia quando diante dos préstimos do Aderbal, que transformou a defunta em miss quarta ou quinta idade, não resistiu ao seu poder de sedução e começaram a namorar ali mesmo. Se vivo fosse e conhecimento tomasse, Nelson Rodrigues iria deitar e rolar com a história da Marieta e do Aderbal. Não me fiz de rogado e na data aprazada comprei um presente com cheque cow-boy, que é de quem sacar primeiro, joguei um pano legal por cima de mim, esquentei as turbinas do meu fusquinha 74 e caí na estrada. Depois de tortuosos caminhos cheguei ao fim da linha: um barranco caprichado, pra ser encarado no dedão. Chovia pra danar e a primeira providência do temporal foi me fazer patinar até lá embaixo para que, resignado, pudesse cumprir meu destino.
Cheguei à casa da Marieta em estado periclitante, mas graças a Deus despercebido, pois tudo era uma barrela só. Entreguei-lhe seu presente, desculpei-me por não ter ido à Igreja, cumprimentei o Aderbal e fiquei à vontade por ali, naturalmente bebendo cerveja quente e comendo salgadinhos frios. |