A maldição do Inca

Data 18/07/2011 14:40:00 | Tóopico: Um dedo de prosa

Dia desses, na TV, apostadores falavam sobre o que fariam, se acertassem as seis dezenas de um megaprêmio acumulado. “Viajar pelo mundo afora” aparecia em quase todas as respostas, mas perdia para o “nunca mais vou trabalhar”. Viajar faz sentido, ainda não conheci bicho gente que não goste de sair por aí, sem lei nem rei, como diria o poeta, sem hora para comer ou dormir, roupas maneiras na bagagem e um chapéu descolado na cabeça.

Eu disse que nunca conheci quem não goste de viajar? Minto. O Hermes, amigo desde os tempos de ginásio, não gosta. Melhor: nunca gostou. Ele garante, entre meio machista e meio sábio, que viajar é “mania de mulher”. Com má vontade, atribui tal interesse ora à curiosidade natural, ora à atração pela novidade, ora à fuga da realidade. E, entre filosófico e misógino, aconselha: “Não tente entender a alma feminina”.

Hermes deve saber do que fala já que acaba de emplacar o quinto casamento. Mas me confidenciou, sob juramento, que teve de fazer uma enorme concessão, a primeira de sua vida, para conquistar a amada: acompanhá-la numa viagem místico-cultural ao Peru. Uma senhora concessão, penso, já que além de viagens meu amigo odeia “velharias”, nome genérico que ele usa para designar museus, sítios arqueológicos e prédios históricos. A birra vem do tempo de estudante: eram os amigos que o socorriam nas tarefas escolares. As redações de português, por exemplo, eu as fazia pelo módico preço de um ingresso de cinema.

Ele me relatou, então, a viagem à região de Cuzco. A coisa começou nas alturas de Machu-Pichu, por volta das dez da manhã: um cálculo renal resolveu fazer turismo nas suas entranhas. Até entender o que estava acontecendo, primeiro ele achou que estava tendo um ataque cardíaco, depois um avecê e, por fim, um piripá geral, cujo desfecho seria uma explosão, como num filme de invasores de corpos. Um nativo deu seu pitaco: “Es el soroche”, palavra quíchua para o “mal das alturas”, uma reação de desconforto e falta de ar provocada pelo ar rarefeito dos quase três mil metros de altitude. A guia do grupo brincou: “É a vingança do Inca”, um dito espirituoso que eles têm na ponta da língua para fazer turista rir e elevar o moral do grupo.

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“Vingança do Inca, o cacete! Que foi que eu fiz ao maldito pele vermelha?!”, ele reclamou – Hermes nunca foi bom em História, ele confunde os nativos daqui com os índios dos filmes de faroeste. Resumo da ópera: por uma série de coincidências infelizes – chuva torrencial, seguida de queda de barreiras, pane de trem e uma procissão-monstro de sexta-feira santa nas vielas de Cuzco – ele só foi receber sua dose redentora de “Buscopina”, na veia, por volta da meia noite, quatorze horas depois de iniciada a migração da bendita pedrinha!

Meu amigo me garantiu que viagem de turismo nunca mais, o que ele curte mesmo é dirigir uma Range Roover até a magnífica fazenda do século XVIII – única “velharia” que ele curte – na região metropolitana de Belo Horizonte. Lá, numa charmosa capela barroca, transformada em adega, ele degusta doses de sua coleção de nobres caninhas mineiras. E, tudo isso, a apenas trinta quilômetros do escritório, sem quedas de barreiras nem procissões-monstro. E, claro, tendo ao alcance das mãos caixas e mais caixas de remédios para eventuais cólicas renais.

“Maldição do Inca, o cacete!”, ele repete, desta vez com uma pitada de bom humor.

Por Jeter Neves





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