Paisagem

Data 23/07/2011 14:20:00 | Tóopico: Um dedo de prosa

Se a gente fica muito tempo olhando para uma determinada paisagem, ela vai misturando-se,  misturando, e tanto, que vira outra paisagem, e mais outra sobre a outra, transformando-se num amontoado de imagens partidas e sobrepostas. A paisagem também está sempre nos observando, pressente a nossa presença nela. Vez por outra alguém atravessa de barco vindo do outro lado. Cisca as águas abrindo uma estrada na superfície do rio. Os ruídos das marolas se alternam, rebatem, ecoam e nos obriga a mover os olhos de desmisturar.


Desde menino, estou aqui brincando de entrelaçar paisagens. Velejando no vento, viajo nelas além do imaginário. Quando viemos morar aqui, o pai tinha largado de beber. Deixou também de trabalhar na carvoeira. O Sô Crioulo deu emprego de vaqueiro pra ele e uma casinha de sapé, próxima daquela gameleira, na beirinha do Rio Abaeté. Morada simples de roça; chão batido, pintadinha com argila colorida, mas bem melhor que a pocilga onde a gente morava no Requerente.

Aqui tudo é paisagem de cerrado, coisa mais bonita que existe. Vô Lélio disse que a vida começava no cerrado e ia se fechando alta nas montanhas até se abrir no mar. Deus criou o mundo com um pedaço do cerrado. 

Quando escurece e sossega o rio, adentro a paisagem e deixo que ela também me invada. A gente misturado vai indo árvore, rio, peixe, cobra, pedra, chuva, vento e som de cachoeira. O pai, coitado, não sabe que sou paisagem. Pensa que eu fui embora naquela travessia de barco na enchente de 1979.

Osias Ribeiro Neves

Paisagem é um dos contos do livro "O Exilado da rua Outono".




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