A verdade e a mentira na internet

Data 17/08/2011 12:02:23 | Tóopico: Editorial

No mundo virtual, a linha que separa a verdade e a mentira pode ser tênue. Talvez tão tênue quanto no mundo real, até porque, o virtual e o real hoje ocupam espaços semelhantes em nosso cotidiano. A internet abriu novas possibilidades de trabalho e de entretenimento e, se você está lendo este texto, sabe qual a importância que esta ferramenta possui em sua vida.


Quem de nós nunca recebeu um e-mail contendo um texto agradável e, ao terminar a boa leitura, buscou o nome do autor e encontrou nomes conhecidos, como Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector ou Arnaldo Jabor? De fato, são ótimos escritores e possuem legiões de leitores e fãs no mundo todo, mas... (sempre tem um “mas”) dois deles são falecidos e o terceiro está exaurido de desmentir frases e textos inteiros que lhe são atribuídos. O resultado é que já temos um novo ditado popular: “na internet, 50% é bobagem e 50% é mentira”.  Não raro, mesmo sabendo que Drummond faleceu antes da internet surgir e não poderia ter em seus escritos menções a e-mails e mensagens de celular, repassamos o texto aos nossos contatos por considerarmos uma leitura interessante, como se o fato da autoria ser questionável tivesse pouca importância. E assim, o texto vai sendo repassado e dá a volta ao mundo, chegando novamente em nossa caixa de e-mails, uma semana depois, desta vez assinado por Clarice Lispector.


Confesso que de início até dei muita risada ao ver Drummond assinando um texto sobre depilação com cera quente – que obviamente só pode ter sido escrito por uma mulher, quem já leu sabe a que estou me referindo. Mas aos poucos fui ficando perplexa com a facilidade em ler e encaminhar os e-mails sem refletir nem por um instante o que esse pequeno gesto representa. Não dar importância a quem escreveu um texto interessante é o mesmo que “matar” o autor. Porque aquele pensamento, organizado e descrito com palavras que foram escolhidas e cuidadosamente dispostas na tela do computador, reflete a pessoa que o escreveu, seu jeito de olhar e perceber o mundo. Escrever um texto, seja sobre depilação, memória, amor, morte, futebol, é falar de si próprio e de seu modo de olhar e viver aquele assunto. Não importa se o autor publicou seu texto num livro, jornal, revista ou num e-mail, blog, site. Ele continua sendo o autor, ainda que seu nome não tenha o peso de Drummond ou Lispector.


O fato é que a internet é tão democrática que aceita tanto a verdade quanto a mentira. E é exatamente por isso que pode servir para encurtar as distâncias entre os autores ainda desconhecidos do grande público e seus leitores. A proliferação de blogs e seus leitores assíduos estão aí para comprovar. Três cliques num site de busca podem nos levar diretamente ao site onde “aquele” texto que tanto nos agradou foi publicado, e lá, descobriremos o nome daquele que nos cativou com suas palavras. Melhor ainda: poderemos compartilhar com o autor nossas próprias impressões sobre o que lemos. Algo que para os leitores contemporâneos de Drummond era feito por cartas - escritas com letra caprichada e muitas vezes não enviadas - está ao alcance de nosso mouse.

Manter os bons textos atualmente em circulação na internet apartados de seus verdadeiros autores depende somente de nós mesmos e de nosso comportamento diante do computador. Ler e escrever diante da tela são atos solitários e é desejável que cada um de nós possa manter-se fiel à sua própria verdade, seja no mundo real, seja no mundo virtual.

Isabella Verdolin Neves





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