O "furacão" Elza

Data 03/04/2012 15:17:09 | Tóopico: Personagem

Uma pessoa pode, sim, traçar seu próprio destino. Prova disso é a cineasta mineira Elza Cataldo, que nunca se cansou de correr atrás do novo, de encarar (e vencer) desafios e de encontrar sentidos para a vida. Ao que faz, ela se entrega por inteiro, de corpo e alma. E acredita absolutamente que tudo vai dar certo. Esse é o segredo do sucesso. A sorte, garante, não tem nada a ver com isso.
A história de Elza com o cinema começou meio que por acaso. Na década de 1980, a então professora de metodologia de pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) embarcou para Paris, onde fez doutorado na Sorbonne. Ela se encantou com a cidade cinematográfica, com mais de 400 salas de exibição. O conceito era inovador: salas múltiplas, pequenas, mas com uma sinergia entre elas. “Havia muita diversidade de filmes, do Japão, da antiga União Soviética, da Índia, aos quais a gente não tinha acesso no Brasil. Passei a frequentar muito as salas de cinema e quis me aprofundar mais. Foi aí que me despertei como cinéfila”, conta. 

Durante o doutorado na área educacional, Elza foi convidada a trabalhar em um centro de pesquisa. “A gente filmava crianças para estudar o processo de ensino-aprendizagem e, depois, analisava essas imagens. Acabei achando interessante aprender mais sobre filmagens e fiz um curso de cinematografia dentro do doutorado. Trabalhei com o grande documentarista Jean Rouch”, lembra. Durante os quatro anos na França, ela acabou conhecendo pessoas da área, com quem manteve contato. Depois disso, não teve mais jeito: já estava completamente envolvida com o cinema, que acabou se tornando um projeto de vida.

Concluído o curso na França, no final dos anos 1980, hora de voltar ao Brasil e às salas de aula. Um momento difícil de readaptação, pois a vontade de trabalhar com o cinema era cada vez maior. Foi então que Elza teve a ideia de criar um intercâmbio entre professores e pesquisadores brasileiros e franceses na área educacional, nos mesmos moldes do doutorado. Assim, as imagens alimentavam as pesquisas. “A análise das filmagens acabava por desenvolver o roteiro. Filmar, analisar, voltar a filmar, alimentado pelo conteúdo, isso é um trabalho muito instigante e rico”, diz.   

Durante o intercâmbio, Elza manteve contato com os amigos da área cinematográfica que fez lá fora. Então, surgiu o convite para trabalhar com um distribuidor francês, que queria abrir pequenas salas de cinema aqui. “Foi um convite ousado. Gosto de novo, da experimentação, de coisas mais ágeis, da criação. Tenho uma característica empreendedora e nunca duvidei de que fosse dar certo”, destaca. Como Elza não consegue fazer nada pela metade, ela pediu demissão da UFMG e abraçou o novo projeto. 

Aqui no Brasil, o conceito das salas múltiplas de exibição já existia em São Paulo (o cine Belas Artes) e em Belo Horizonte, com o Savassi Cineclube e o Usina. Mas havia espaço para mais. Com a cara e a coragem, Elza passou a trabalhar, juntamente com sua sócia na época Tâmara Braga, de segunda a segunda, para viabilizar o novo empreendimento. O primeiro passo foi correr atrás de parcerias com empresas privadas, que se interessassem pela novidade. “Fui a 140 empresas e consegui o apoio de 36. Era difícil porque não tinha nada de concreto, ainda era uma ideia abstrata. Mas tive a sorte de encontrar pessoas visionárias que acreditaram no projeto como eu acreditei”, lembra.

Mas onde instalar o complexo Belas Artes em Belo Horizonte? Não poderia haver lugar melhor do que o antigo espaço do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFMG, na rua Gonçalves Dias, ao lado da Praça da Liberdade. O local estava completamente abandonado e destruído. Só havia a carcaça. Mas havia disposição de sobra para erguer ali o Belas Artes Liberdade. 

O sonho demorou cerca de três anos para virar realidade. Mas valeu a pena cada esforço para desenrolar, no novo espaço de arte, o tapete vermelho que sempre chamava a atenção de Elza nos festivais de cinema em várias partes do mundo. “Depois que desenrolei o tapete vermelho, no dia da inauguração do Belas Artes, nunca mais deixou de passar gente ali. Foi um empreendimento ousado, diferente, com exibição de filmes de arte”, destaca. 

Complexo de três salas inaugurado, a luta passou a ser pela programação de filmes diferenciados. Elza conta que ia aos três principais festivais de cinema do mundo - Berlim, Veneza e Cannes -, onde via oito filmes por dia e anotava o que queria para o Belas Artes. “Eu anotava tudo e aprovava ou não os filmes. Fiquei com um critério de qualidade enorme, mas não tinha trunfo como exibidora. Já fiquei na porta das distribuidoras esperando a entrega das cópias, para garantir que elas passassem no Belas Artes. Foi como uma missão para mim”, diz. 

Entretanto, a partir do momento que existia bilheteria para os filmes, os exibidores começaram a prestar atenção no Belas Artes. E as coisas também se tornaram mais fáceis. Foi um sucesso. O complexo passou a ser referência cultural em Belo Horizonte e abriu mais amizades e portas para Elza Cataldo.
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Inauguração do Belas Artes - Foto Kika
Atrás das câmeras
Um belo dia, ela estava no Festival de Cinema de Berlim e encontrou com o crítico Rubens Ewald Filho. “Ele me perguntou se eu, que entendo e gosto tanto de cinema, não pensava em fazer um filme. A pergunta foi um marco, despertou em mim um sentimento novo e nunca mais fui a mesma. Sim, eu queria fazer um filme”. Foi o bastante para Elza se entregar novamente a um desafio, pois o Belas Artes já estava se tornando uma repetição, e ela confessa que tem horror a isso. 

O próximo passo foi pesquisar quem estava trabalhando com filmes no país e em Minas Gerais. “Escolhi ‘Amor & Cia.’, do Helvécio Ratton, para atuar como assistente de direção de arte. Mas vi que queria mesmo ser assistente de direção. Com o Helvécio, eu entendi que aquele era o caminho, mas não pude me dedicar inteiramente porque ainda tinha o Belas Artes”, lembra. Claro que Elza não desistiu de se tornar diretora de um filme. O projeto foi adiado, mas só um pouquinho. Afinal, pessimismo é uma palavra que não existe no dicionário dela.

Fazer um filme não é fácil. Primeiro, é preciso saber qual o tema, o que também não é simples. Elza soube o que queria filmar quando leu uma notinha no jornal sobre um livro que contava a história da filha de Tiradentes. Foram sete anos de pesquisas, viagens e muito, muito trabalho até o lançamento, em 2006, do premiado “Vinho de Rosas”. Durante esse tempo, aos poucos a cineasta foi se desligando do Belas Artes. 

Lançado no Festival de Cinema de Tiradentes, “Vinho de Rosas”, um filme de época, foi um dos mais vistos no Brasil no ano do seu lançamento. Além disso, participou de vários festivais, inclusive fora do país. E ganhou prêmios, como melhor direção, som e direção estreante. E assim Elza Cataldo virou cineasta mesmo. E não parou mais. Logo depois, lançou a comédia “O Crime da Atriz”, baseada no conto do autor russo Arkadi Avertchenkko. O curta-metragem foi premiado no Filme em Minas e na Mostra de São Paulo. Nesta, abocanhou três prêmios: melhor curta do júri, do público e de técnica. “Foi um sucesso. Subi ao palco e parecia que estava recebendo o Oscar. Não conseguia nem descer de lá”, conta Elza.
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Elza Cataldo Foto Bruno Maqalhães
“Case ambulante”
Ela explica que “O Crime da Atriz” mostra a trajetória de uma pessoa que criou a sua história, correu seu próprio risco, enfim, que não tem medo de criar para seguir em frente - qualquer semelhança com Elza Cataldo não é mera coincidência. Motivador, foi usado pela renomada Fundação Dom Cabral para dar treinamento sobre liderança criativa. E avançou mais: Elza foi contratada pela universidade corporativa da Fiat Automóveis para trabalhar a criatividade dentro da liderança. “É muito interessante. Descobri uma linha de pesquisa em administração de recursos humanos e trabalhei dentro do conceito de ‘sense makers’, pessoas que ajudam as empresas e os funcionários a fazer sentido, a buscar um significado diário. Acabei me tornando um ‘case’ ambulante”, ressalta. Com isso, a cineasta passou a atuar também em treinamento de empresários e educadores.  

Mas a paixão pela arte cinematográfica nunca deixou de ser ardente. Paralelamente, Elza chegou a produzir outros filmes, como “Meu Pé de Laranja Lima”, de José Mauro de Vasconcelos, e “A Luneta do Tempo”, de Alceu Valença. Agora, ela está desenvolvendo o roteiro sobre a Inquisição no Brasil, que vai ser exibido, na TV, em formato de minissérie. “O tema é interessante porque a inquisição perseguiu e registrou ao mesmo tempo. Tem os relatos das pessoas que se confessavam, o que é muito rico”, adianta.  

Outra produção já engatilhada é o curta sobre o quadro “A Má Notícia”, de Belmiro de Almeida (1858-1935), que está em exposição no Museu Mineiro, em Belo Horizonte. “São várias versões da carta que vem no quadro, que é o espaço cênico do filme. Seis pequenas histórias se passam dentro desse cenário, No fim, se vê o quadro no museu e as pessoas andando, criando suas próprias histórias”, revela. 

Com a criação dos roteiros, Elza acabou descobrindo um novo desafio: a literatura. A inquieta personagem agora não quer mais parar de escrever. E o espaço aqui, caro leitor, vai ficando pequeno para contar um pouco da vida desta mulher que encanta quem a conhece. A autoestima, o brilho no olhar, o otimismo, o sorriso e uma alegria contagiante convencem até o mais incrédulo que vale a pena acreditar nos sonhos e correr atrás deles, por mais difíceis que sejam os obstáculos. Sem exagero, Elza Cataldo é pura inspiração! 

E se engana quem pensa que esse “furacão” deixou de lado a vida pessoal para se dedicar aos projetos. Ela se apaixonou algumas vezes, criou o filho - que hoje é um empresário de sucesso - e, agora, está vivendo “uma história ótima, com um grande amor da adolescência”. Não daria um bom roteiro?   

Por Miriam Gomes Chalfin




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