Toninho Camargos

Data 11/01/2012 17:24:58 | Tóopico: Personagem

Desde menino, o belo-horizontino Antonio Laerson Mialaret Camargos, o Toninho Carmargos, tem grande fascínio pela música. Os irmãos já tocavam instrumentos quando ele se interessou, aos 12 anos, pelo violão. O aprendizado foi em casa, com a família, a inesquecível turma do Bairro Padre Eustáquio e colegas do colégio Estadual Central. Naquela época, ele acompanhava os famosos festivais de música da televisão, que revelava artistas em todo o país. Durante o científico, se encantava pelo movimento da música popular brasileira (MPB). Aos 17 anos, começou a compor. E não parou mais. 

“Na escola, eu tinha um convívio muito grande com músicos, como Juarez Moreira, Leri Faria e Aldo Júnior. Foi lá que a ideia de continuar com a música foi pra frente. No fim do científico, em 1974, formamos o Grupo Mambembe”, conta Toninho. O núcleo principal do grupo era formado por ele e pelos músicos Cadinho Faria, Murilo Albernaz e Miguel Queiroz, além das passagens de Cláudia Sampaio, Edson Aquino, Antônio Martins e Titane, entre outros.

O Mambembe começou a fazer shows em BH, no interior de Minas e também em outros estados, como São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. “Foi um dos trabalhos mais importantes da música naquela época”, destaca Toninho. Foi o grupo que lançou “Rio Araguaia”, que fala sobre o movimento guerrilheiro, entre o fim dos anos 1960 e a primeira metade da década de 1970, que lutava pelo fim da ditadura no país. Escrita por Toninho e Cadinho Faria, a letra teve grande repercussão. Recentemente, foi cantada por Titane, no show de 30 anos de carreira da artista mineira. Outra letra de sucesso é “Samba, samba...”, composta por Toninho em 1983 e gravada pelo trio Amaranto 20 anos depois. Hoje, a música ainda é executada nos shows do grupo.


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Toninho e o Trio Amaranto - Foto Cássia Almeida e Jaime Augusto

 

Mas o destino quis que alguns dos integrantes do Mambembe seguissem seu próprio caminho. Assim, o grupo se desfez em 1982. Mas Toninho fez questão de continuar firme atrás do sonho. Estudou música na Fundação de Educação Artística (FEA), criada em 1964 pela pianista Berenice Menegale, uma das principais do país, e continuou compondo letras e músicas. Também trabalhou como produtor musical de rádio, assessor de Cultura de Nova Lima e gerente de Cultura da Prefeitura de Pedro Leopoldo, ambas na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

De lá para os dias de hoje, Toninho fez cerca de 200 composições. E de onde vem a inspiração? “Minha música é muito ligada com a minha vida. Minhas experiências, emoções, a vida que vejo, o lugar em que estou, o mundo em que vivo. Tem um compromisso natural com a realidade. Pode ser de amor, mas também pode abordar uma denúncia, uma questão social, ou ser uma crônica”, explica o artista. Não existe um ritual para criar. Muito menos um espaço ou um tempo determinado. “Pode demorar alguns minutos ou alguns dias. Já compus dentro de um ônibus em BH. Quando cheguei ao local aonde ia, estava com a música praticamente pronta”, exemplifica Toninho.

O último trabalho foi o CD “Encontros”, produzido por Regina Coelho e que reuniu vários parceiros de Toninho Camargos. “Eles cobravam um trabalho novo, e a Regina deu vida à produção”, afirma Toninho.

Ele destaca que o país produz, hoje, música de altíssima qualidade, mas que não está nas rádios. “Mais do que antigamente, o mercado hoje é muito fechado. Houve épocas em que a indústria cultural absorvia mais os valores artísticos e interferia menos. Há algum tempo, essa indústria não abrange mais todo tipo de artista e interfere muito na criação, impondo modelos, sugerindo processos de criação de acordo com a oportunidade de venda. É puramente um negócio sem compromisso com a qualidade e com a democratização do processo”, critica.

Segundo Toninho, mesmo os grandes nomes da música brasileira estão fora da grande indústria do disco. “A gravadora independente Biscoito Fino, do Rio de Janeiro, grava por exemplo Edu Lobo e Chico Buarque, entre outros”, diz.

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Foto Cássia Almeida e Jaime Augusto

 

O mercado das rádios também é fechado. “O que vai tocar é exatamente o que as gravadoras querem. Algumas estações têm um campo mais voltado para a MPB, como a Inconfidência, e conseguem divulgar alguma coisa. As demais tocam só o que é ‘sucesso’ produzido”, ressalta. Por isso, os artistas vivem de shows. “Não dá para viver de direito autoral, pois precisa ter muitas músicas tocando nas rádios”, explica.  

E claro que a música permeia o futuro de Toninho Camargos. Ainda não há nenhum projeto definido, mas novas canções vêm por aí. “Tenho me dedicado mais à composição. É o que gosto de fazer e o que faço de melhor”, resume. Com quatro filhos, dois estão envolvidos com a música e, quem sabe, seguirão os passos do pai.

 

Trabalhos de Toninho Camargos
- LP “Mambembe”, gravado de forma independente e lançado em 1981, com 2 mil cópias.
- LP “Música de Minas”, produzido pela Fundação de Educação Artística e lançado em 1981. O trabalho reuniu compositores mineiros de diversas épocas e lançou a música “Rio Araguaia”, do Mambembe.
- Compacto “Semente de canção”, lançado em 1983 com quatro músicas, em parceria com Cadinho Faria.
- CD “Encontros”, produzido por Regina Coelho e lançado em 2008. Direção musical de Toninho Camargos, com participação de Amaranto, Angela Evans, Brasil com S, Cadinho Faria, Celso Adolfo, Da Boca pra Fora, Hudson Brasil, Ladston do Nascimento, Lígia Jacques, Lira Amaral, Romeu Cosenza e Titane.
- Blog “Noel Rosa - 100 canções para o centenário”, feito em parceria com Regina Coelho e Luiz Henrique de Faria. Denominado “uma reverência ao jovem e eterno compositor carioca, figura emblemática do samba e da música brasileira”, o trabalho foi composto de 30 edições semanais sobre a vida de Noel Rosa, que completaria 100 anos em 11 de dezembro de 2010. O blog continua no ar, tendo alcançado a marca de aproximadamente 30 mil visitas.

 

Principais shows do Grupo Mambembe
- “De Xica a Xico”, apresentado cerca de 15 vezes nos anos de 1975 e 1976. Contava a história da música popular brasileira. Foi a partir desse show que surgiu o grupo Anonimato.
- “Conversa de botequim - Filosofia da cerveja” cruzou várias cidades com músicas próprias, mostrando a realidade dos tempos da ditadura. Foram cerca de 30 apresentações nos anos de 1976 e 1977.
- “Divisor de águas”, apresentado por 11 vezes em 1978.
- “A Revolta da Chibata” rodou vários estados nos anos de 1979 a 1982. O show contava a história do movimento de marinheiros da Marinha do Brasil
no Rio de Janeiro, em 1910, contra castigos físicos impostos aos marinheiros.

 Vídeo das músicas Samba, samba... (Toninho Camargos) e A Rita (Chico Buarque)

 

 

 

 

Por Miriam Chalfin

 

 





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