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Enviado por admin em 17/08/2011 16:56:44 ( 1973 leituras )
Nos anos 70 havia uma grande movimentação em torno da música em Belo Horizonte. Além do Clube da Esquina e sua trupe, os festivais de MPB fervilhavam também pelo interior de Minas Gerais em Passos, Congonhas, Caeté, Mariana, Contagem e Boa Esperança, entre tantas outras cidades. Novos grupos surgiam, boa parte deles ligados ao movimento universitário. Os ritmos oscilavam entre sambas, baiões, toadas, rock, baladas, bossa nova, e outras manifestações da rica música popular brasileira. Assim nasceram o Mambembe, que trazia em sua primeira formação o Cadinho, o Miguel e o Toninho Camargos; a Banda Livre, do saudoso Melão, que tinha em sua companhia Mauro Rodrigues, Arthur Andrés e José Namem; o Secula Seculorum que tinha à frente o competente pianista Giacomo Lombardi, o Pardal e o Marcus Vianna; o Vôo Alto, Cartase, Raça, Ingazeira e Anonimato. Cantores e compositores se aventuravam sozinhos, como Celso Adolfo, Leri Farias, Oscar Neves e Ladston do Nascimento em início de carreira; o Sérgio Moreira, o Newton Rosa, o José Alves, o João Boamorte, Fernando Boca, Alysson, Abner do Nascimento, Paulinho, Marcos Bolívar, o José Carlos e Itamara, além de outros competentes músicos e compositores, dos quais se destacava o veterano sambista Jadir Ambrósio.

Compor tornou-se uma estratégia de sobrevivência no caos da censura para muitos que apostavam na música de Minas. Infelizmente, para a maioria, era uma atividade paralela.

A parceria

Em Belo Horizonte, a música que invadia a cidade vinha de todos os lugares, especialmente dos bairros da periferia. Os músicos podiam ser encontrados nas portas das casas, nas esquinas, nos botecos da região e, principalmente, nas noites de sábados em serenatas. Havia também as festas religiosas e nelas um palco onde sempre havia um programa de calouros em que muitos dos cantores locais se arriscavam.
 

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Foi nesse universo que dois antigos amigos de futebol infanto-juvenil se reencontraram como compositores e poetas no bairro Jardim Montanhês. Estudantes universitários na UFMG, Eugênio Gomez e Osias Ribeiro Neves compunham suas músicas e, sempre que um fazia alguma coisa nova, ia à casa do outro mostrar. Assim o trabalho foi sendo incentivado de parte a parte até surgir a primeira parceria. Outras pessoas se achegaram, como o parceiro e amigo Danilo dos Santos Pereira, letrista de primeira grandeza, e as intérpretes Ângela Maciel, Gracinha, Maria Lúcia, Cristina e Helena. A turma foi se organizando e passou a participar dos festivais de música, na capital e nas cidades do interior de Minas Gerais, conquistando vários primeiros lugares. Na segunda metade dos anos 70, Osias fundou com Júlio Gomes, Matuzalém, Gil da Mata, João Batista, João Grandão e Darlan Matos Cunha, o Grupo Anonimato, que também conquistou vários prêmios em festivais, além de um público fiel. O grupo durou um ano e meio. 


O LP Arraial

A vida seguiu em frente: Eugênio tornou-se pediatra, cuidando inclusive das filhas de Osias, formado sociólogo. Danilo formou-se em Direito. A música tornou-se um hobby, ficando as composições restritas aos amigos. Estavam trabalhando, casados, criando filhos, mas, o sonho de produzir um disco sempre aparecia em suas conversas. Num dia, em 1984, reuniram condições para bancar a aventura de gravar um disco independente, concretizando o antigo desejo. Conjuntamente, decidiram que nenhum deles cantaria ou tocaria no disco, contratando profissionais para a empreitada. Assim foi feito. Faltava ainda a escolha da voz feminina para interpretar as músicas. Depois de inúmeras conjecturas, foi escolhida a cantora Titane. A gravadora foi a Bemol. Foram horas e horas de estúdio. Eugênio já morava em Lavras - continua por lá até hoje - e sempre que podia estava em Beagá para ajudar na produção do LP.

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LP é a abreviatura de Long Play, o famoso disco de vinil, que tocava em 33 rotações nessa época. Tinha tamanho limitado e o processo de mixagem não era simples, muito menos barato. “Arraial” foi concebido e executado de acordo com a tecnologia disponível e, por causa disso, uma das etapas teve de ser realizada em São Paulo: a prensagem dos 3.300 discos foi feita na RCA.

 


“Arraial” teve participação e colaboração de arranjadores como Rujo Herrera, Marco Antônio Guimarães, Gilvan de Oliveira e o Maestro José Guimarães. Além deles, assinaram os arranjos o Flávio Fontenelle e Marcos Vinicius Cardoso. Foram quase 50 músicos participando do disco, entre eles o Grupo Uakti, Gilvan de Oliveira e Ladston do Nascimento. Ângela Maciel Lago fez uma participação especial na faixa “Lamento” e Sérgio Moreira cantou com Titane a música “Aboio”. A capa foi trabalho da artista Rosangêla Quinaud. Na Bemol, o técnico foi o Marquinhos com o apoio do Dirceu Sheib.

Foram gravadas 11 músicas, 5 de cada um e uma de parceria de Eugênio e Osias. Na hora de prensar, o técnico da RCA informou que estava muito grande, os sulcos iriam ficar muito justos e era precisa tirar uma das músicas. A música “Convite” de autoria de Eugênio e Osias, que, numa bela interpretação de Titane e Sérgio Moreira chegou a ser cogitada para batizar o LP, acabou ficando de fora.

O disco foi lançado na Casa dos Contos, em 2 de dezembro de 1984, com a presença de mais de 300 pessoas. O show de lançamento aconteceu no grande teatro do Palácio das Artes, no dia 20 de maio de 1985, sob a direção de Javert Monteiro e com abertura do compositor.

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 23 anos depois

Titane cresceu como cantora e alçou vôos mais altos. Eugênio seguiu carreira como médico em Lavras, Danilo como advogado e delegado. Osias trabalhou no Grupo Belgo e mais tarde fundou o Escritório de Histórias. O Grupo Uakti - já conhecido por sua atuação com Milton Nascimento, Gilvan de Oliveira e Marcos Vinícius alcançaram a fama internacional. E tantos outros envolvidos neste projeto seguiram seus caminhos, alguns fazendo da música sua profissão, outros apenas hobby. Eugênio Gomez e Osias continuam a compor, ambos com novas músicas gravadas por outros intérpretes, como Ivana e Oscar Neves.

Passados mais de 20 anos, navegando pela internet, qual não foi a surpresa ao encontrar várias das músicas disponíveis para download. Pesquisando mais, descobrimos “blogueiros” que escrevem sobre músicas de boa qualidade, e lá estava a capa do “Arraial”, com comentários e elogios às músicas, letras, arranjos e interpretações. Como a gravadora RCA cometeu o despautério de perder a fita matriz, tornou-se impossível remasterizá-lo em novas mídias. 

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Os que não conhecem este trabalho - ou por serem muito novos e não serem nascidos à época, ou por não estarem em Belo Horizonte e Minas Gerais nos idos da década de 80, ou mesmo porque naqueles tempos as informações não estavam disponíveis de maneira tão fácil como hoje, com internet e sem censura - e os que conhecem e estão com saudades, podem agora ter acesso às músicas, às letras, à ficha técnica e aos autores. Tudo de graça e sem sair de casa.

 

No blog do Escritório de Histórias você encontra as músicas em MP3, as letras das músicas para serem impressas e copiadas, com as informações técnicas e mais notícias publicadas na ocasião do lançamento. E se quiser falar com os compositores, deixe um comentário no blog ou envie um e-mail para eh@escritoriodehistorias.com.br, ele será devidamente encaminhado.
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Arquivos anexados: discogravando_arraial.jpg 
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