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Enviado por admin em 15/07/2011 14:50:00 ( 1048 leituras )

Tenho um amigo que seguiu a carreira do magistério. Recentemente, os alunos lhe deram um adesivo para o carro – um Fusquinha 71, uma verdadeira relíquia: “Não me assalte, sou professor”. Sempre cordial, levou a coisa na brincadeira. Seu senso de humor faz dele um forte. Aliás, ele contou-me que é impossível não sentir simpatia por aqueles rostos jovens, no primeiro dia de aula – desconfio de ironia, mas resisto. Imagino, então, um silêncio reverente pairando na sala e, em cada rosto, um interesse sincero.

 

O semestre vai ser tranqüilo, pode pensar o desavisado. Ledo engano, disse meu amigo, em dois ou três dias, eles vão transformar a sala de aula numa praça de alimentação de shopping center: Grupinhos falando ao mesmo tempo, numa altura estonteante, apesar da distância de dois palmos entre um e outro interlocutor, um entra-e-sai de boate e chamadas de celulares pipocando de todos os lados. Uns poucos que tentarem acompanhar a aula vão ser rotulados de “Caxias” e olhados com desdém. Eles se recolherão, intimidados. “São os ‘alunos sem voz’”, diz meu amigo. Não haverá clima para ensino e aprendizagem. 


Mas, o pior, ainda está por vir. A qualquer hora vão jogar na sua cara um clichê dos anos 1970: “Uma imagem vale por mil palavras” – esse, parece-me, é do Marshall MacLuhan, na época o papa da comunicação. Eles ouviram o galo cantar, mas não sabem onde, e repetem o velho clichê como se fosse versículo das Sagradas Escrituras. A frase, fora do seu contexto, vai ganhar novos sentidos. Pode significar, por exemplo, “Chega de blá-blá-blá, professor, cadê o datashow?” Ou: “Aula expositiva já era, audiovisual é o canal”. Ou, ainda: “Estudar isso pra quê, professor?”. A propósito, eles não leram MacLuhan, eles ouviram falar, talvez na cantina, da boca de algum veterano, que também ouviu falar não sabe bem onde. Para eles, ler é uma tortura, muitos se orgulham de nunca ter lido um livro em toda a vida. Outros, que leram os resumos do vestibular, lembram-se dessa fase como um pesadelo. Como condená-los se vivem num país cujo chefe, para encorajar a galera, deixa a entender que não estudou, que nunca leu livros, mas que, nem por isso, etc.

Tudo isso seria “normal” se não fosse por um detalhe: esses “meninos” mal educados têm entre 18 e 25 anos e a “escola” não é mais a que muitos pais só visitavam para livrar os filhos da punição por desvios de conduta. A “escola” agora é a universidade. Mas eles não se acham iletrados, às vezes até dão a entender que têm leitura. Dia desses, um perguntou – meu amigo garante que esse não foi o único – o que os professores tinham contra a obra (sic) de Paulo Coelho e Lair Ribeiro. Uma aluna, sem parar de lixar as unhas, perguntou o que eles “viam” em Machado de Assis e Clarice Lispector. Tudo bem, ele diz, conformado, nestes tempos de “multiculturalismo” e “pós-modernidade” é preciso ver as coisas sem as lentes do preconceito. Mas dispara: “Eles confundem autoajuda com arte, moralismo com ética e fanatismo religioso com História”. E quando escrevem, ele desabafa, os textos revelam uma sintaxe infantil e semântica tosca.

Segundo ele, uma estratégia que alguns colegas usam, e que ele chegou a usar, é dizer antes da chamada que quem não quiser assistir à aula pode sair da sala, a presença está garantida. Desde que um colega foi vítima dessa estratégia desesperada – a coisa foi parar na Ouvidoria, o professor recebeu uma advertência, registrada na ficha funcional – ele adotou outra estratégia: distribui um texto no início da aula, seguido de um consistente roteiro de leitura. Logo começa a pipocar a pergunta: “Vai valer nota?”. Mal ele pronuncia o “não”, um por um os alunos se mandam. Com os restantes, ele consegue desenvolver alguma atividade com um mínimo de sentido.
O amigo contou-me que acaba, ele próprio, de pôr um adesivo no Fusca-71: “Hei de vencer, apesar de professor eu ser”. Um otimista incorrigível.

Por Jeter Neves

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