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Enviado por admin em 19/07/2011 14:40:00 ( 1042 leituras )

Quem diria, faz quarenta anos que o homem pisou na lua. A mídia tratou o assunto com uma reverência épica, o tema só foi superado pela morte do popstar, Michael Jackson, e pela “gripe suína”. Pelo barulho da mídia, a nova versão da velha gripe deverá dizimar grande parte da humanidade, apesar de todas as evidências em contrário.

 

Mas volto ao “maior feito do homem”. Aconteceu numa tardezinha de 20 de julho, no longínquo 1969. Eu tinha dez anos e colecionava álbuns de figurinhas e revistas em quadrinhos. Meus heróis preferidos eram Flash Gordon e Super-Homem. Assisti à cena pela tevê do vizinho, a nossa vivia no conserto. Ainda agora, na TV, aparece a imagem de Armstrong descendo do módulo lunar e tocando, pela primeira vez na história, o solo lunar: “Um pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade” - todos nós acreditamos que a frase era de improviso.

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Era também na casa do vizinho que a turma se reunia para ler gibis e trocar figurinhas. O planeta Terra vivia a chamada “guerra fria”, EEUU e URSS a um passo de mandar tudo pro ar e disputando palmo a palmo as almas dos “terráqueos”. Os EEUU eram os mocinhos, portanto do Bem, e os soviéticos eram os bandidos, portanto do Mal. Aqui, a ditadura militar entrava no seu quinto ano. Nossos golpistas tinham o apoio da grande mídia nacional – ainda que, hoje, todos eles neguem isso de mãos postas – e a garantia americana de que receberiam o tratamento VIP, reservado aos democratas. Assim, o sucesso norte-americano em solo lunar era também a vitória do Bem contra o Mal, da democracia e da livre iniciativa contra o comunismo e a tirania, que os soviéticos impunham ao seu povo. E, se isso não bastasse, os caras eram ateus!

Por que estou contando isso? É que a “guerra fria” também desembarcou na nossa rua. Lá morava um metalúrgico, um líder sindical que vivia sob a mira do DOPS, a polícia política da ditadura. Virava e mexia, eles vinham e levavam o sujeito. Era de lá que sempre partiam as dúvidas mais cabeludas sobre as conquistas dos rapazes americanos: “é propaganda imperialista” (suspeita de caráter doutrinário), “é arrumação hollywoodiana” (suspeita de caráter conspiratório) e “enquanto houver cavalo São Jorge não anda a pé” (suspeita de apelo popular). Mas havia outras, é claro. Por orientação de muitos pais, o filho do metalúrgico, um moleque de cara atrevida, não era bem vindo nas nossas rodas, exceto quando a questão era o time de futebol, porque sem ele nossa equipe não fazia gol nem em time de botões.

Todas as vezes que levavam seu pai, no início sob aparato policial e, por fim, na calada da noite, meu pai dizia, protegido pela veneziana da janela: “Lá vai aquele comunista!” – não menciono o vocativo que acompanhava suas exclamações. Minha mãe dizia apenas: “Graças a Deus!”, aliviada do risco de contágio. No começo, a mulher ficava à porta, rodeada por uma escadinha de meninos e o menorzinho no colo, vendo a viatura desaparecer com seu marido. Ela nunca aceitou ajuda dos vizinhos, tinha a mesma cara altiva e atrevida do filho goleador.

Hoje, os EEUU continuam enviando seus rapazes, seja ao espaço seja aonde houver gente que não professe a fé no Deus verdadeiro e na livre iniciativa: Iraque, Sudão, Afeganistão e, a qualquer momento, Irã e Coréia do Norte. A propósito, a Amazônia já está na sua mira. Haja falta de Deus e de livre iniciativa nesse vasto mundo de Nosso Senhor. Em tempo: da última vez, não devolveram o pai do nosso centroavante. Fico imaginando se aquele operário, como um astronauta, também não foi posto em órbita, só que para sempre.

Por Jeter Neves

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