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[+] Desatento

Enviado por admin em 21/07/2011 14:30:00 ( 1025 leituras )

Seus olhos já não agüentavam. Com um imenso esforço, que o cansava ainda mais, tentava mantê-los abertos. Sim, fora um dia difícil como tantos outros. Trabalhava para ajudar nas contas de casa desde o dia em que o pai teve um sério problema de saúde que o deixou inválido. Não era uma vida miserável, mas a mãe não conseguia, sozinha, cuidar de mais dois filhos ainda crianças. Por culpa do destino, teve que passar para a vida operária e largar os estudos. Mas, mesmo assim, fazia tudo com fé e uma paz no coração que só não era capaz de disfarçar seu cansaço.

 
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E era sexta-feira. A semana inteira convertia para esse dia. Horas de sono acumuladas, mas se esforçava para manter-se alerta. Sabe-se lá porquê, pois já não se divertia mais a noite, não encontrava com os amigos e sua vida se resumia a única rota casa-trabalho-casa rotineiramente. Era feliz desse modo, pelo menos achava. Então, sem motivo algum, resolveu não cochilar nesta sexta.

Esperou a condução que chegou no horário de costume. Tudo no seu dia era feito sempre na mesma hora de modo que entrava sempre no mesmo ônibus e encontrava sempre as mesmas pessoas. Apenas, porém, as observava, já que nunca tinha ânimo para conversar. 

Desta vez, havia um lugar vago ao lado de uma moça que nunca vira antes e decidiu sentar-se ali apenas por ser o mais desconfortável de todo o carro. Como queria, era o ideal para manter-se aceso. E foi o que fez. Passou bons tempos na sua luta intrapessoal e os pensamentos distantes em sonhos e planos. Como queria que fosse tudo diferente! Como queria ser mais feliz! Mas sabia que estava distante de qualquer perspectiva e isso o fazia voltar-se novamente a sua dura vida atual. E nessa viagem parado, foi se perdendo e ficando cada vez mais confuso com tudo. Já não sabia mais o que era ao certo: um fracasso desacreditado ou um sonho irrealizável?
Já estava chegando à conclusão de que tudo isso era ainda mais cansativo de se pensar. E resolveu não concluir nada. Estava sim, era atordoado com tudo. Queria explodir, ao mesmo tempo em que achava importante continuar vivo. E girava, completamente perdido. Nem se esforçando, conseguiria mais fechar os olhos e relaxar. Estava inquieto, encabulado, enclausurado, preso sem estar realmente.

Enquanto continuava nesse mundo alternativo e completamente sem graça que acabara de criar, pensou ter ouvido um sussurro ao seu lado. Não entendeu muito bem, afinal não conseguia entender mais nada. Mas foi o suficiente para decifrar um "Oi". Meio confuso ainda ouviu algo que parecia um pedido de informação. Mas não importava mais. Foi o suficiente para uma breve conversa.

E acabaram conversando mais do que breve. Seu mundo deu uma tremenda reviravolta. Foi uma conversa inútil, de suma insignificância, mas justamente do que precisava em tal hora. Não perguntou nome nem nada. Sua mente não o deixava pensar em algo assim. Apenas conversou, como se não tivesse nada a perder. Nem a ganhar...

E gostou! E assim que gostou, escutou um pedido de licença bem mais nítido que o início da conversa. "Prazer, muito obrigado!". E se viu sozinho de novo.

Pouco depois, o lugar fora ocupado por outra moça. E esta nada disse...

Por Henrique Rodrigues

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