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Enviado por admin em 22/07/2011 14:30:00 ( 1087 leituras )

Texto escrito por ocasião da morte de João Cabral de Melo Neto

 

Na estradinha onde andavam
Distraídos os pés meninos

 

Plantas de cana ladeavam
Os dois lados dos caminhos.

E cana, mais eu me lembro
Arrebatando os seus ninhos

Cingindo ferramentas no atalho
Ante o canto triste dos passarinhos.

Bailavam foices lavrando eitos
De cana, de gente e seus bichinhos

Eram suor, lágrimas em sal e sangue
E os corpos acabando-se aos pouquinhos.

E no meio de tanta cana
Na cantiga de tanta usina

Os descalços pés do João menino
Corriam os leitos afeitos de eitos finos.

Tal arquiteto de vinhedos postados soldados em fila
Forjava em lavras as palavras, os severinos e os seus destinos.

Eram tantas as vidas em sol cozidas e em sal consumidas
Nos faróis prenunciados dos fornos quentes das usinas

Fervendo na garapa doce da cana a dor da lida e o regaço
Melaço, aço, corpo, sal, ardor, ferrugem e bagaço.

Quis o mestre de carpina de muitos eitos lavrados
Severino de um mundo por tanto ainda inacabado
Que a morte enfim, severina, viesse assim pronunciada
Nos versos refletidos de mãos de pouco tempo iniciadas.

Ora mestre Cabral de nossas carpideiras desveladas
Onde para sempre ancora nossas vidas enjeitadas
Se armaste os versos nas histórias de gentes povoadas
De bichos-homens-carangueijos-pássaros em revoadas?

- Ainda é cedo, irmão das almas. Vais agora, irmão das almas?
   - Vou. A minha hora é chegada, irmão das almas.
- Quanta pressa, irmão das almas. Quem te chama, irmão das almas?
   - O destino com seu ferro infalível, irmão das almas.
- Que destino aferrado de que fala, irmão das almas?
   - O da vida peregrina, irmão das almas.
- Mas que vida peregrina é a tua, irmão das almas?
   - É a vida e seu mistério que nos fia a fina via, irmão das almas.
- Mas que fio é esse que nos fia e desfia, irmão das almas?
   - Fio fino de um novelo, dito tempo, irmão das almas. Que permeia a nossa estada nesse leito, irmão das almas.
  - Que novelo mais fechado no estreito da estrada, no sublime da estada, irmão das almas?
   - O comprido do novelo foi fiado na chegada, irmão das almas. O estreito dos caminhos cavouquei com minha enxada, irmão das almas. E se curto ou alongado o meu novelo, irmão das almas, vergo em laço dessa ponta que ora aponta a outros pontos, noutras palmas d’outras canas, irmão das almas.
- Sinto calma em tua fala, irmão das almas. Vai em paz, irmão das almas. Vai em paz com as nossas palmas.

Osias Ribeiro Neves
Outubro de 1999

 

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