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Enviado por admin em 24/07/2011 14:20:00 ( 1374 leituras )

Sou devoto de Santo Antônio da Roça Grande desde sempre. Meus pais fizeram por mim uma promessa que cumpri, com eles, ao completar 6 anos de idade. Na ocasião, por volta de 1955, minha mãe me vestiu de Santo Antônio: aquela roupinha marrom com um cordão da mesma cor enlaçado na cintura e um par de sandálias franciscanas, também marrom. Como tantos, tornei-me um santinho Antônio lindinho.

 
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Como bons mineiros, me recordo ainda hoje, fomos de trem de ferro. Embarcamos na estação de Carlos Prates num trem da Rede Mineira de Viação, cujas bitolas das linhas ainda eram aquelas estreitas, o que fazia o vagão lotado jogar de um lado a outro, parecendo o bonde Padre Eustáquio quando entrava na reta da Rua Mauá. Passamos pela bela Praça da Estação e seguimos na direção do Horto, Abadia, São Geraldo, Caetano Furquim, Marzagão, General Carneiro até chegar em Roça Grande, hoje, município de Sabará. Aquele lugarejo foi criado por Matias Cardoso em 1675 para abastecer os procuradores de ouro como Fernão Dias Paes Leme. Contam que certo dia Santo Antônio apareceu por lá sobre uma pedra e as pessoas de fé, assim como mais tarde meus pais e eu, passaram a rezar e fazer pedidos ao Santo Antônio em Roça Grande. Todos aqueles que professam fé, tem precisão, fazem os seus pedidos e são atendidos pelo Santo. Assim foi com os meus pais e assim foi também comigo e acho que foi também com o Che Guevara. Isso mesmo, o Che Guevara. Se você pensa que guerrilheiro não reza e nem faz promessa, está muito enganado. Na hora que o bicho pega, o santo é chamado pra servir de escudo ou para receber a escuta. Não há nada de mal nisso, nem de imoral. Afinal, somos seres humanos, passageiros de um trem sem destino e sem freio e na hora da onça beber água, cada um é que sabe o tamanho do choro e a vertigem do medo. Pois sim. Para que você não duvide, fiz uma foto do retrato do Che Guevara exposto entre as fotos de outras pessoas na sala de milagres da capela.
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Sou devoto de Santo Antônio da Roça Grande desde sempre. Meus pais fizeram por mim uma promessa que cumpri, com eles, ao completar 6 anos de idade. Na ocasião, por volta de 1955, minha mãe me vestiu de Santo Antônio: aquela roupinha marrom com um cordão da mesma cor enlaçado na cintura e um par de sandálias franciscanas, também marrom. Como tantos, tornei-me um santinho Antônio lindinho.
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Como bons mineiros, me recordo ainda hoje, fomos de trem de ferro. Embarcamos na estação de Carlos Prates num trem da Rede Mineira de Viação, cujas bitolas das linhas ainda eram aquelas estreitas, o que fazia o vagão lotado jogar de um lado a outro, parecendo o bonde Padre Eustáquio quando entrava na reta da Rua Mauá.

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 Passamos pela bela Praça da Estação e seguimos na direção do Horto, Abadia, São Geraldo, Caetano Furquim, Marzagão, General Carneiro até chegar em Roça Grande, hoje, município de Sabará. Aquele lugarejo foi criado por Matias Cardoso em 1675 para abastecer os procuradores de ouro como Fernão Dias Paes Leme. Contam que certo dia Santo Antônio apareceu por lá sobre uma pedra e as pessoas de fé, assim como mais tarde meus pais e eu, passaram a rezar e fazer pedidos ao Santo Antônio em Roça Grande. Todos aqueles que professam fé, tem precisão, fazem os seus pedidos e são atendidos pelo Santo. Assim foi com os meus pais e assim foi também comigo e acho que foi também com o Che Guevara. Isso mesmo, o Che Guevara. Se você pensa que guerrilheiro não reza e nem faz promessa, está muito enganado. Na hora que o bicho pega, o santo é chamado pra servir de escudo ou para receber a escuta. Não há nada de mal nisso, nem de imoral. Afinal, somos seres humanos, passageiros de um trem sem destino e sem freio e na hora da onça beber água, cada um é que sabe o tamanho do choro e a vertigem do medo. Pois sim. Para que você não duvide, fiz uma foto do retrato do Che Guevara exposto entre as fotos de outras pessoas na sala de milagres da capela.
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Lá está a foto dele, aquela famosa, feita por Alberto Korda. Nela, não sei se de próprio punho, está escrito a não menos famosa frase: “hay que endurecerse, pero sin, perder la ternura, jamais”.
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Não sei quando foi que ele esteve por lá ou se pediu algum emissário para levar a foto e cumprir a promessa feita, certamente à distância. Talvez a promessa tenha sido pela vitória em Sierra Maestra ou quando da invasão da Baía dos Porcos, planejada pela CIA e autorizada pelo Presidente John Kennedy. Não sei ao certo, imagino. Pode ser ainda que a promessa tenha ocorrido quando de sua perambulação pela América Latina sobre uma moto ou mesmo quando já instalado em Cuba, morria de tédio. Olha que pode até ser para curar a sua asma. O certo é que a foto permanece lá na sala de milagres e aquela constatação me deixou intrigado e me pôs em delírio por semanas, até que lá voltei para fotografá-la.

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 Em casa, fazendo umas flexões de manhã, acabei por refletir acerca de alguns episódios da nossa vida política. Lembrei-me de um fato importante: a condecoração de Che Guevara com a Grã Cruz da Ordem do Cruzeiro do Sul, em agosto de 1961, pelo então Presidente da República, Jânio da Silva Quadros. Aquele fato criou um descontentamento grande nas forças armadas brasileiras e nos políticos. Até hoje ninguém entendeu aquela insanidade - assim como não entendemos ainda e acho que nunca entenderemos - o golpe da renúncia do Jânio que nos custou muito caro.
No meu entender de cronista delirante, a única possibilidade que vejo é a de que Che Guevara, na ocasião de sua condecoração, tenha pedido ao Jânio que cumprisse para ele a promessa feita a Santo Antônio. Afinal, Jânio Quadros, durante a condecoração do Che Guevara, havia lhe pedido, por solicitação do Santo Ofício, que interferisse junto a Fidel Castro para cessar a perseguição à igreja católica em Cuba, e foi atendido. 

Mas não foi só por isso que Jânio se dispôs a cumprir a promessa alheia. Como Jânio tinha propensão ditatorial golpista, apesar de ter sido eleito com expressiva votação, achou por bem fazer aquele favor ao amigo com quem, numa emergência, poderia contar. Fico imaginando o Jânio, depois de renunciar, saindo estrategicamente, pela direita, é claro - como aquele leão da montanha do desenho animado -  travestido de alguma coisa que não ele, montado na vassoura símbolo de sua campanha e voando até Roça Grande para cumprir a promessa feita por Che Guevara. Na ocasião, talvez até ele tenha sido humilde o bastante e aproveitado a oportunidade para pedir perdão a Santo Antônio pelo mal que fez ao país com aquela atitude “renuncista” irresponsável.

Osias Ribeiro Neves

 

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