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Enviado por admin em 25/07/2011 14:20:00 ( 1173 leituras )

Danilo dos Santos Pereira

Poeta noctívago é assim mesmo. Basta a gente bater o ponto nos botecos ditos intelectualizados e aparece o talzinho com monte de textos debaixo do braço. É o alto preço que pagamos pela distração. Convém esclarecer que nada tenho contra os poetas, pois há poetas muito bons, noctívagos ou não. A lei da noite boêmia nos diz que freqüentar botequins à noite significa um inevitável encontro com os tipos mais estranhos, bizarros, folclóricos e cheios de manias. São “bebuns”, “chincheiros”, “médicos”, “místicos”, filósofos” e.. poetas. Como se vê, foram todos embrulhados na vala comum das aspas, menos os poetas. Não se trata desta vez de qualquer tratamento especial a essas figuras noturnas,  mas é que o poeta não leva jeito de enganador (pode ser um fingidor e nisso eu não sou louco em contrariar Fernando Pessoa). O cara pode até ser considerado um mau poeta. Mas, poeta é poeta e pronto.E não se fala mais nisso.

 
ilustracaopoetanoitemenor

O poeta é um sujeito diferente, tem um jeito muito particular de ver o mundo e descrevê-lo. O poeta passeia pelas emoções como ninguém mais. Chico Buarque, em notável parceria com Edu Lobo, afirmou que o poeta pode ver na escuridão. E falou com propriedade, pois afinal estava falando de si mesmo, poeta extraordinário que sempre foi. Ora, se o poeta pode ver na escuridão, já imaginou o poeta noctívago? É claro que isto é apenas modo de dizer, grosso modo segundo os juristas, pois afinal há poetas e poetas e tem uns por aí que não enxergam um palmo diante do nariz.

Noutro dia fui tomar umas e outras com o Antunes, companheiro velho de guerra desde os tempos da brilhantina e do glostora. Falávamos sei lá sobre o quê e também tanto faz como tanto fez, quando ele me cutucou:

- Rapaz, olha só quem vem lá...

Olhei não querendo olhar, meu adivinhômetro dizendo que era fria e retruquei entre dentes:

- Putz! É o Sinfrônio prd, que além de ter um papo ruim demais, ainda é poeta auto proclamado.

- E aí, gente boa, tudo em cima? – perguntou o sorridente Sinfrônio, sentando-se sem ser convidado e destilando o seu papo ruim.

À medida em que ia serrando cerveja e tira-gosto, o Sinfrônio deitava falação contra o Governo Federal e Algarves. Com um pacotaço de anotações sobre a mesa, ia fazendo a gente ler uma por uma, o que é parada indigesta pra cacete. Os poemas eram ruins pra encardir, mas o Sinfrônio nos olhava com aquele olhar de quem esperava uma crítica positiva, à altura de sua suposta genialidade. Torcendo para que ele fosse assombrar outro terreiro, fazíamos leitura dinâmica e exclamávamos:

- Bom! Muito bom!

Não há texto de poeta noturno que resista a uma boa leitura dinâmica inventada, a gente “lê” rapidinho pra ficar livre do freguês. Mas, cá entre nós, quando o freguês é o Sinfrônio, não há tatu que agüente. Mudávamos de assunto e nada do Sinfrônio se mancar, muito menos se mandar. Colocávamos o inoportuno conviva na geladeira, zombávamos da impertinente criatura e nada.

Quando o talzinho ameaçou deleitar-se com seus poemas prediletos e obrigar-nos a uma releitura, eu rodei a baiana. Também, pudera. Para dose cavalar de versos de rima pobre, haja coração. Prefiro mil vezes a solidão, ir jogar gamão, morrer de paixão e que o Sinfrônio vá lamber sabão. Levantei-me sob o olhar perplexo do atônito Antunes, inspirei-me na Marselhesa e resolvi dar um basta à tirania:

     Sinfrônio, agora lhe digo,
     digo de direito e fato:
     O seu poema é ruim
     e o seu papo, muito chato.

Foi o máximo. O Sinfrônio foi embora no ato. Ficou ofendido, mas nos deixou em paz durante um bom tempo.

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