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Enviado por admin em 17/08/2011 12:04:18 ( 1090 leituras )
Na noite passada eu sonhei com o Tio Otávio. Mesmo depois de morto, ele continuava como sempre, com a mesma calva longa na cabeça grande, a fala mansa e o semblante ausente de quem era considerado perturbado desde o início dos anos sessenta. De fato, tratava-se de um sonho recorrente em que ele repetia a pergunta que me fez quando completei a maioridade: “Em quem você vai votar?” Ora, o Tio Otávio, que fugira tantas vezes do Hospital Psiquiátrico Raul Soares na capital mineira e, desde então, vagava solto e livre pela Avenida Dom Pedro II, não estava só doidão, estava, também, politicamente alienado. Afinal, vivíamos o ano de 1969 e não havia eleições. Estávamos em plena era dos generais e eles não apreciavam democracia, discussões, polêmicas, debates, reuniões, descontração, gentileza e, claro, eleições. Achavam que o Brasil era um grande quartel e usavam da força e da truculência para alcançar os fins que, aliás, até hoje não consegui saber quais eram. 

Ao acordar e tentar refazer o sonho, percebi que a fala do Tio Otávio começava a fazer sentido nessa época rica em eleições. Podemos votar em tudo: vereadores, prefeitos, deputados estaduais, governadores, deputados federais, senadores e até para presidente. Alguns lugares estão fazendo eleições para diretores de escolas e, num prédio de alto padrão da Zona Sul de Belo Horizonte, onde mora um dos meus amigos, a campanha para síndico já ultrapassou os muros do condomínio e está mobilizando até mesmo o comércio da região. 

A fala do doido Tio Otávio no sonho talvez venha me cobrar alguma coisa como, por exemplo, em quem foi que eu votei nas últimas eleições. Será que me lembro? E você, se lembra em que votou?
Precisamos nos valer da nossa consciência e fazer uma reflexão. Esqueçamos os desprezíveis senadores biônicos, cancro na democracia, e tentemos nos lembrar quais daqueles calhordas ajudamos a eleger por nossos representantes. Vamos começar da base que é a nossa cidade. Olhemos a Câmara dos Vereadores e avaliemos o desempenho de cada um, vejamos o que eles estão fazendo por nossa cidade, pelo bem estar da comunidade. Será que eles estão de fato nos representando ou apenas construindo uma carreira e fazendo um pé de meia para toda a eternidade de sua família? Olhemos para o prefeito eleito. O que mudou para a cidade e para a comunidade depois que ele assumiu a prefeitura? O quanto tem crescido o seu patrimônio e como ele tem aparecido na mídia e por quais motivos? Façamos o mesmo com os deputados que, teoricamente, trabalham para nós. Depois, os governadores. O que eles tem feito além da política e da politicagem?

Façamos uma leitura simples e honesta, tentemos separar o joio do trigo, se isso for possível. Depois de sairmos dos nossos redutos municipal e estadual, façamos uma viagem para o Distrito Federal, que deveria ter os políticos do mais alto gabarito para nos representar. Entremos pela porta do Congresso Nacional, mas andemos por ali com certo cuidado, lembrando sempre que estamos entrando num local um tanto perigoso, de terreno escorregadio e movediço. Naquela casa, “apartheid” do povo, não somos bem vindos depois que votamos. Afinal, é lá que nosso destino é decidido e controlado por leis que irão reger as nossas vidas, aplicadas pelo Executivo, aqueles que estão do outro lado da rua, no Palácio do Planalto e que nunca vêem nada e nunca sabem de nada.

Ora, o Tio Otávio era um sujeito doido, perturbado, alienado e andava pelas ruas se achando o dono do mundo sem nunca ter se apossado dele. Ria da vida, da desgraceira dela e, em seus lampejos de delírio, nos fazia pensar em nossas decisões nobres, como escolher quem nos representará. “Em quem você vai votar?” Certamente hoje, se ele estivesse ainda por aqui, vendo a bandalheira que perpassa o Legislativo como um todo e o próprio executivo federal, ele talvez me argüisse de outra maneira com o mesmo sentido: “Você votou nesses caras?” Não sei com que cara eu responderia ao Tio Otávio. Talvez a minha consciência me mostrasse que sou eu o louco, e não ele. Como pude ajudar a montar uma camarilha desse tamanho? Como pude ser tão inocente e irresponsável em contribuir para eleger tanto vagabundo?

 

Cabisbaixo, ante as notícias vindas diariamente da ex-casa do povo, me retraio e tento encontrar um culpado para aliviar a minha dor. Concluo, então, que, talvez, essa nossa necessidade em recuperar o tempo perdido, por tanto tempo sem votar, tenha afetado a nossa capacidade de discernimento e nos conduzido ao desvario de sair votando pelo simples ato de exercer a democracia por tanto tempo aviltada. Mas, talvez, estejamos exagerando, escolhendo qualquer canalha para nos representar sem as consultas básicas que qualquer medíocre crediário faz para nos vender uma peça de roupa ou um sapato a prestação.
 
Nós e os nossos entramos na onda da facilidade e do descompromisso com nossa cidade, com nosso estado e com o nosso país, ao votar para ficar livre da bizarra obrigação. Elegemos pessoas sem caráter, sem ficha limpa, condenados e processados por crimes comuns, por gestão fraudulenta, desvios de dinheiro público, corrupção passiva e a ativa e, nesse descompasso, trabalhamos contra nós mesmos e, a passos largos, contribuímos para a desconstrução da tão frágil democracia brasileira.

Como perguntaria o insano e alienado Tio Otávio: Em quem você votou nas últimas eleições? Ainda se lembra? Em quem votará nas próximas? Tem certeza?

Osias Ribeiro Neves
Escritório de Histórias

 

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