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Enviado por admin em 17/08/2011 10:59:00 ( 1041 leituras )
revisitada na presença do outro, apropriada, relida e recontada no presente. Memória é presente. É a leitura que se faz dos acontecimentos passados com a âncora no agora e, talvez, seja a seta mais preciosa capaz de nos apontar o amanhã. A posse das lembranças é passo fundamental para a construção da memória que, por mais pessoal que pareça, está sempre imersa no coletivo, afinal, somos seres sociais e a nossa história estará sempre presa na cadeia do tempo, com as suas malhas e redes a nos conectar com o mundo e com os outros. Memória é presente e é coletiva, sem ela somos um vazio, um quase nada, uma folha branca: ausência.  “O universo é feito de histórias, não de átomos”. Essa frase, atribuída à poetisa e ativista política Muriel Rukeyser e a frase de Riobaldo me levaram a perceber o quanto a memória anda em alta no cinema brasileiro. Depois do filme Batismo de Sangue de Helvécio Ratton escancarar os porões da ditadura brasileira, dois ótimos filmes em cartaz nos mostram outras memórias sob enredos bem costurados. Os desafinados, de Walter Lima Júnior, faz uma leitura dos anos 60, tendo por linha mestra o advento da bossa nova, um movimento musical da classe média da Zona Sul do Rio de Janeiro que encantou o mundo. Noutra vertente, Linha de Passe, de Walter Salles - dirigido por ele e Daniela Thomas, nos apresenta a memória de um outro Brasil, o da periferia paulistana do novo século, onde a sobrevivência é a linha mestra de uma família pobre, sem pai, mantida pela mãe e pelos bicos feitos pelos filhos.

O fio condutor de ambas as histórias são os sonhos legitimamente brasileiros. Em Linha de Passe, a insistência de Dario em se tornar jogador de futebol e a aposta de sua mãe corintiana. Em Os desafinados, a batalha dos garotos cariocas em se tornarem astros da nova música brasileira. Nos dois enredos não há concessões, Walter Lima Júnior passeia pelo Rio de Janeiro e Nova York com a suavidade de sua câmara num período de grandes mudanças de comportamento, sem deixar de mencionar o viés histórico e político do momento. Fala do Golpe com sutileza e, inclusive, enfoca o esquecido fato do pianista brasileiro Francisco Tenório Júnior, desaparecido e morto pela ditadura argentina em 27 de março de 1976, quando acompanhava Vinicius de Moraes e Toquinho em viagem à capital portenha. Walter Salles e Daniela Thomas nos fazem condutores de barulhentas motocicletas nas tumultuadas ruas de São Paulo, numa tensão que ultrapassa o trânsito e nos mantém inquietos na cadeira da sala de cinema. Não se omitem ao mostrar a estrutura que rege a ascensão dos garotos aos clubes de futebol profissional e o papel da corrupção na mais baixa escala da hierarquia social, ali mesmo na periferia, onde os olheiros são tão iguais na miséria econômica e social do protagonista.

Lançados quase que simultaneamente, os dois filmes são capazes de evidenciar o fosso social entre duas classes no Brasil, ainda que na alma daquelas pessoas sobreviva o sonho brasileiro de alçar vôo rumo à realização. Retratam sob os ângulos diferentes de abordagem como a luta para realizar os sonhos é algo presente no cotidiano. Em Linha de Passe, o menino Reginaldo deseja conhecer o pai a qualquer custo, enquanto em Os desafinados o jovem cineasta se vê frustrado com o seu filme premiado no exterior e censurado em seu próprio país. Aqui merece destaque a interpretação primorosa de Selton Mello, em falas e, sobretudo, em olhares que dizem tudo. Destacam-se também em belezura e competência as duas mulheres, Cláudia Abreu e Sandra Corveloni, ambas premiadas por suas excelentes atuações.

Em ambos, sobressai a memória do Brasil, seja do tempo passado, seja do tempo presente, posta sobre a mesa para nossa reflexão e deleite. Nela está contido o cotidiano de classes sociais distintas, na leveza e na dureza da costura que o cinema desses mestres apropria e expõe com grande competência e sensibilidade. Afinal, como disse Riobaldo Tartarana, “O que lembro, tenho”.

Osias Ribeiro Neves
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