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Enviado por marina em 17/07/2012 09:21:57 ( 2543 leituras )
“Eu acho que leio bem mais do que ouço música”. A sentença não surpreenderia, caso sua autora não fosse reconhecida pelos anos dedicados ao estudo e à prática do piano. De família mineira, Berenice Menegale nasceu em Belo Horizonte, em 1° de janeiro de 1934. Os pais, ambos educadores, antes de a gerarem, tiveram dois filhos. O encanto pela literatura, segundo Berenice: “vem desde sempre”. Muitos autores e livros já estiveram entre seus preferidos, como ela mesma explica: “o gosto por determinado tipo de texto e autor muda com o tempo, com as pessoas e os cenários que me cercam”. Atualmente, dentre os livros de cabeceira pode-se encontrar a biografia de Clarice Lispector, escrita por Benjamin Moser. “Tenho um interesse em especial pela personalidade forte da Clarice”.
Na infância, além da companhia dos livros, Berenice cresceu na presença do piano da mãe, que apesar de dominar o instrumento, não demonstrava suas habilidades. Contudo, atenta aos dedilhados e acordes de um primo do interior que, de vez em quando, visitava a capital para estudar, Berenice começou a se interessar pelo piano e a apreender canções de ouvido. A primeira a executar com maestria foi a marchinha de carnaval ‘Pierrot Apaixonado’. Vigilantes à prematuridade do talento expresso pela filha, os pais de Berenice não hesitaram em buscar auxílio. “Meu pai estava sempre naquele meio intelectual. Então ele consultou a dona Helena Antipoff sobre como deveria agir em relação à vocação que eu estava demonstrando com muita precocidade.” 
Assim, aos três anos Berenice passou a frequentar aulas de piano. Mas a dedicação precoce não surgiu como obrigação. As aulas eram conduzidas como brincadeiras, “só prazer, só alegria”. Entretanto, completados sete anos, as aulas de música cederam espaço ao ensino regular nas classes primárias da Escola de Aperfeiçoamento Pedagógico de Belo Horizonte. “Todos os professores do estado vinham para se aperfeiçoar nessa escola. As classes primárias eram como um laboratório. Eram classes primárias muito especiais, um ensino maravilhoso! Eu tive o privilégio de estudar em uma escola pública de alto nível.”
Ao concluir o ginásio, paralelamente aos estudos gerais, Berenice estudava música e tocava em recitais.  Sob a recomendação dos pais, ao completar 15 anos e na companhia da mãe, partiu para o continente europeu, com o objetivo de estudar no Conservatório Nacional Superior de Música e Dança de Paris. O futuro da jovem se delineava, apontando uma promissora carreira de pianista, que envolvia uma vida voltada prioritariamente para a profissão: viagens ao redor do globo, apresentações constantes e intensa rotina de estudo. No entanto, o quadro que se apresentava como a idealização de diversos músicos não surtiu o mesmo efeito em Berenice. Sua insatisfação com a carreira de pianista resultou na concepção de diversas ideias e projetos. “Eu comecei a pensar muito em fazer alguma coisa, uma escola, um centro. Rabisquei muitos projetos. Desde meus 19 anos eu já estava com essas ideias.”
Em 1960, Berenice retornou de Viena, sua última viagem da carreira de pianista. Ao aportar em sua terra natal, realizou uma turnê de concertos pelo Brasil. Mas a ideia de criar uma instituição dedicada ao ensino da música, permanecia presente. “Todo o lugar que eu ia, a ideia me perseguia. Por experiência, eu aprendi que não adiantava uma região ter um histórico com muita música, porque onde não se havia investido em educação, se não havia construído uma escola, tudo havia desaparecido.”
Nesse percurso, Berenice transmutava-se, deixando a carreira de pianista de lado, mas não o piano, ela começava a revelar aspectos da gestora que tem sido.  
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 Berenice Menegale
Foto: Rafael Motta
 
A Diretora Executiva e a Fundação de Educação Artística (FEA)
“Tem 50 anos que a minha vida é prioritariamente conduzir essa instituição junto a um grupo de pessoas abnegadas e competentes”.
No ímpeto de tornar a ideia realidade, Berenice e amigos se reuniram para criar a Fundação de Educação Artística (FEA), em Belo Horizonte. Dentre os fundadores estavam os músicos Eduardo Hazan, Vera Lúcia Nardelli Campos, Sérgio Magnani, Venício Mancine, Maria Clara Paes Leme, Conceição Resende e Lilly Kraft, que contaram com o apoio de Caio Magno da Silva Pereira, primeiro presidente da FEA.
Os preparativos ocorreram em 1962, de modo que, no ano seguinte, “a Fundação foi oficialmente criada, como entidade sem fins lucrativos, totalmente autônoma”.  O objetivo inicial era ofertar cursos livres de música, a partir da articulação entre educação e cultura, elementos geralmente interpretados como a “cereja do bolo”, que sempre foram percebidos por Berenice como “intrínsecos à formação da pessoa”. “A arte ocupa um espaço como se fosse outra dimensão da pessoa. Se ela participa daquilo, ela se enriquece e se torna mais completa.”
Avessa ao sistema classificatório e ensino rígido vivenciados no Conservatório Nacional Superior de Música e Dança de Paris. Berenice se inspirou na alegria de menina, em tocar piano como que se brincasse de boneca, para constituir as diretrizes de ensino na Fundação. “Eu rejeitei aquele tipo de ensino muito rígido. A relação tradicional dos alunos com os professores, como se fosse quase uma relação de subserviência.”
A primeira sede da FEA foi estabelecida em uma casa alugada na Avenida Bias Fortes, onde permaneceram durante um ano. Nesse período eram oferecidos cursos baseados em disciplinas teóricas, iniciação musical para crianças, e de instrumentos. Para aproximar o público, foi criado o projeto ‘Manhãs Musicais’, que, aos domingos, proporcionava ao público uma série de concertos de música do século XX, exibidos após uma palestra elucidativa. 
Em 1968, a partir do esforço conjunto de professores, que doaram seus salários durante dois anos, a Fundação pôde realizar a compra de sua nova sede na Rua Gonçalves Dias, 320, no Bairro Funcionários, onde permanece até os dias atuais. Ao mesmo tempo em que o espaço crescia novas atividades passavam a ser ofertadas e, com isso, entre os anos de 1974 e 1975, foi construído o Teatro Heloísa Guimarães. 
À época dos 25 anos da Fundação, projetos como os Festivais de Inverno, criados em 1967, ganharam repercussão nacional. Enquanto Belo Horizonte deixava de contar com sua Orquestra de Câmara, a FEA criava a Orquestra de Câmara da Fundação de Educação Artística e o Grupo Oficcina Multimédia para a promoção de oficinas voltadas a construção de instrumentos que, mais tarde, constituíram o UAKTI – Oficina Instrumental. 
 
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        Ao centro, o viloncentista Márcio Carneiro, na 10° Semana de Música de Câmara da Fundação de Educação Artística (FEA)

Com o crescimento e consolidação da FEA, Berenice se deparou com uma demanda inesperada. Jovens de comunidades carentes começaram a buscar os cursos de música, mas sem condições de pagar pelas aulas individuais, de alto custo. Diante desse quadro, Berenice viu a possibilidade de conceder a cada jovem a oportunidade de identificar suas potencialidades, para que pudessem se profissionalizar e exercer uma atividade concernente às suas vocações e aptidões. “Se eles não tivessem essa oportunidade, o que fariam? Sairiam da escola, iriam pegar qualquer bico, qualquer trabalho, para ganhar um salário mínimo, talvez, um pouco mais. Iriam ser pessoas, provavelmente, frustradas, pois teriam uma vocação não realizada. Em muitos casos eles nem identificam essa vocação por falta de oportunidade. Assim, se nós damos essa oportunidade para trabalhar naquilo que é a sua aptidão, eles possivelmente vão ser mais felizes, vão conquistar uma remuneração melhor, porque estarão fazendo uma coisa para a qual estão se preparando.”
Contudo, no início da década de 90, a Fundação passou por um período conturbado. Com os balanços financeiros negativos, professores tiveram seus contratos cancelados e algumas atividades foram suprimidas, como as bolsas para músicos de alto nível. Mas a crise não tardou a findar, com os cortes e a conquista de parcerias, progressivamente a Fundação conseguiu se restabelecer, retomando os cursos que haviam sido cancelados. Mas, para além das dificuldades, a década de 90 serviu como palco para a realização dos Ciclos e Simpósios de Música Contemporânea ocorridos na Fundação.
Em meio aos desafios enfrentados na direção da FEA, em 1989, Berenice foi convidada para atuar como Secretária Municipal de Cultura em Belo Horizonte, chamado que a fez duvidar da própria capacidade. “Foi uma surpresa muito grande! Mas eu titubeei só um pouco, porque havia algumas coisas que eu achava que não estavam de acordo com a minha experiência. Mas depois me mostraram que eu podia, então aceitei.”
Em 1995, Berenice foi convocada para um desafio ainda maior, assumir a Secretária de Estado da Cultura de Minas Gerais. A proposta foi aceita, contudo Berenice não exerceu o mandato até o fim, deixando o cargo em 1997, para se voltar prioritariamente à Fundação, que, naquele ano, concluía as obras da nova sede construída no terreno da casa da Rua Gonçalves Dias. A edificação do novo espaço contou com o apoio do Fundo Nacional de Cultura (FNC), na realização dos projetos acústico e técnico da Sala de Música Sérgio Magnani.  
Tempo presente
A dedicação à FEA se apresenta hoje para Berenice como a base da sua formação. “Eu sou esta pessoa que abraçou a Fundação como uma causa, e que me sinto eu quando estou aqui” (...) “A Fundação foi minha escola. Eu a considero minha maior fonte de experiências!”.
Como resultado de todo o trabalho despendido, atualmente, com o auxilio financeiro de patrocinadores e parceiros, a Fundação mantêm 100 alunos bolsistas. Mas a demanda é crescente, e a FEA continua deficitária. Para aumentar a receita, há um projeto de expansão da sede para o Belvedere. Antes de se estabelecer na região, serão ofertados cursos de férias no bairro , ainda em julho de 2012. Outra forma de arrecadar recursos será por meio do apoio de ex-alunos e amigos da Fundação.
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Aula de violino na FEA
Foto: Rafael Motta
Dentre os novos projetos, também há a ideia de promover oficinas de cordas para despertar vocações na periferia. Mas o projeto só poderá ser colocado em prática a partir da obtenção de mais recursos. 
Em 2013, a FEA completará 50 anos. A programação do cinquentenário não está definida, mas já é esperado o lançamento da biografia e do catálogo do acervo do maestro Sérgio Magnani. Para fechar as comemorações, há ainda o projeto do livro sobre a Fundação de Educação Artística, a ser lançado no final de 2013. 

por Aline Xavier

 

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