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Enviado por admin em 09/05/2012 11:40:27 ( 2918 leituras )

A mulher que cruza um dos cômodos do extenso salão - adornado por encantadoras bonecas feitas em tecido, cestos de palha, entre outras múltiplas peças em barro e produtos artesanais -, caminha carregando um semblante que exprime confiança e o sentimento de tarefa cumprida. Quem observa os passos arrastados, mas sempre firmes, de imediato, não pode imaginar o mosaico de pequenas histórias individuais, vinculadas àquela mulher, que, quando encadeadas, revelam não somente a professora, Noemi Macedo Gontijo, mas, também, a história da fundação, desenvolvimento e consolidação do Serviço de Assistência Social Salão do Encontro, que completa 42 anos, em outubro de 2012.

 

A história do espaço, que atualmente emprega 300 pessoas, e oferta programas e projetos de capacitação para jovens, adultos e portadores de necessidade especiais, além de assistência educacional aos filhos de famílias de baixa renda no município de Betim, se confunde com a história de vida de Dona Noemi - como é carinhosamente conhecida. Ambas as trajetórias podem ser simultaneamente percorridas nas expressões e palavras da educadora que, desde muito jovem, optou por se dedicar plenamente aos menos favorecidos. É sua narrativa pausada, que se intensifica a cada evento recobrado, que remonta o contexto em que o Salão do Encontro foi constituído.  

 
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                                        Noemi Gontijo, fundadora e dirigente do Salão do Encontro
                                                              Foto: Arquivo do Salão do Encontro 
 
Em fins da década de 1960, Noemi Gontijo atuava como professora do estado de Minas Gerais, na Vila dos Marmiteiros, atual Vila São Vicente, localizada na região noroeste de Belo Horizonte. Cansada do ambiente movimentado da capital, antes de partir em uma viagem à Paris, Noemi enviou uma carta ao governador do estado de Minas Gerais, na qual pediu para ser transferida para “longe do centro da cidade”. 
 
O pedido foi concedido. De volta ao Brasil, a educadora foi transferida para um grupo criado em uma fazenda no município de Betim, a 30 quilômetros da capital. “Nesse grupinho, tinha uma dona, que era a mais rica da cidade e muito metida. Ela gostava de falar que era da ‘alta’. Separava os meninos. Tinha a fila dos homens e tinha a fila das mulheres para entrar. Então, no primeiro dia, ela disse: ‘vão dona Noemi, vão colocar eles em fila.' Todo dia se faz igual. Eu olhei e disse: ‘Jamais! Vai ser tudo misturado’”, lembra Noemi. Aquela atitude surpreendente seria apenas a primeira das muitas tomadas pela professora, que transformariam a rotina do lugar. 
 
Naquela época, durante a manhã, Noemi se dedicava às atividades com os excepcionais atendidos no Instituto Ester Assunção, em Belo Horizonte, e, no período da tarde, atuava no grupo, em Betim. Nesse período, com o auxílio de trabalhadores locais, Noemi construiu um galpão, onde distribuía sopa para a comunidade.  “Comecei nesse lugarzinho aqui. Tinha um terreninho que podia levantar uma casinha. Na primeira semana, os pedreiros de Betim fizeram o alicerce. Na segunda, levantaram as paredes, e, na terceira, eles cobriram. E era ali que a gente se encontrava.” Foram aqueles primeiros encontros na “casinha”, que levaram a população a reconhecer o espaço como Salão do Encontro. “A gente falava: ‘vai lá, vai lá pra gente encontrar, pra gente tomar uma sopa boa, né’”.
 
A sopa era feita a partir de doações, arrecadadas sempre após muito trabalho. Em meio ao improviso, cada um contribuía com o que era possível. “Eu pedia Deus e todo mundo. Você me dá tanto de arroz, o outro me dá tanto disso, os menininhos, cada um trazia uma folhinha, cebolinha, e fazia aquele sopão. Eu ia ao mercado, via aqueles caminhões saindo com aquelas caixas de boi, mandava cerrar para tirar de dentro o tutano, que era a coisa melhor. E as pessoas olhavam essa dona doida (...).” Nesse período o auxílio também veio de fora do país. Um norte americano, amigo de Noemi, costumava enviar leite, azeite, açúcar e latas de manteiga.
 
Mas, com o tempo, a professora percebeu que apenas o alimento não seria suficiente para aumentar a autoestima da população e torná-la autossuficiente. Assim, no desejo de “conceder oportunidade para que cada pessoa pudesse se desenvolver e encontrar o próprio caminho”, Noemi, apoiada por seu amigo Frei Stanislau Bartold, se empenhou para oferecer atividades profissionalizantes à  comunidade. Não seria apenas o alimento, mas o trabalho, a principal ferramenta utilizada pela professora, no combate à pobreza. 
 
Dentro dessa perspectiva, foram instalados dois teares mineiros no único cômodo daquela primeira 'casinha'. Noemi então convidou a comunidade a aprender o ofício. Acreditando no trabalho que começava a ser desenvolvido, Risoleta Tolentino Neves, concedeu o suporte necessário para consolidação das atividades do Salão do Encontro. “Eu disse para ela que eu queira uma variedade de oficinas com todos os meninos trabalhando, e ela acreditou.” Em 21 de outubro de 1970, Risoleta Neves doou um terreno de 70 mil m², nas proximidades da sede do Salão do Encontro, por meio do governo de  Minas.

                                        “A melhor coisa do mundo é você enxergar o outro”  Noemi Gontijo
 
Com a conquista do espaço, pouco a pouco outras oficinas foram sendo criadas, após o tear mineiro, foi adotado o chileno, depois a carpintaria, e assim por diante. Sem requisitar currículo, Noemi abraçou todos àqueles que se dispunham à aquisição e multiplicação de conhecimento. Sob o olhar de inclusão, fiel à ideia de que todas as pessoas são capazes, o Salão do Encontro foi sendo constituído. “Eu nunca quis passar para o outro o paliativo. Queira sempre passar o melhor. Mostrar que o potencial está dentro dele, que depende da gente despertar”.
 
Atualmente, o Salão do Encontro oferta 12 oficinas artesanais, que promovem a capacitação profissional de jovens e adultos. No desejo de integrar as famílias, a organização oferece, também, serviços voltados para educação infantil e complementar. O espaço conta com uma creche, em que são atendidos, preferencialmente, filhos de colaboradores: recém-nascidos de 4 meses a 2 anos, e em idade pré-escolar, de 3 a 5 anos.  A escola complementar é voltada para crianças e adolescentes de 7 a 14 anos, que vão para a escola regular em meio período e fazem o contra turno no Salão do Encontro, onde realizam atividades artísticas.
 
 
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Showroom do Salão do Encontro
Foto: Vladmir Araújo
 
Ampliando a capacidade de atendimento da organização, em 2006, foi fundado o Salão Filhote, no bairro Laranjeiras, também em Betim.  A unidade foi construída partir da doação de terreno, pela Prefeitura de Betim, e da parceria entre Teksid do Brasil e a Câmara Italiana, que patrocinaram as obras de edificação do novo espaço.
 
Como reconhecimento do trabalho desenvolvido, a Lei Municipal de Fomento à Cultura de Betim, de n° 3.264, criada em dezembro de 1999, leva o nome de Noemi Gontijo.  Já em 2002, o Salão do Encontro foi reconhecido como ponto turístico do município, por meio da Lei Municipal  de n° 3727. 
 
Em homenagem a uma das principais personagens na história da organização, em novembro de 2007, foi inaugurado o Centro de Referência Risoleta Tolentino Neves, nas dependências do Salão do Encontro. O Centro é constituído por um auditório, onde são promovidas atividades complementares às executadas no Salão do Encontro. Outra conquista em 2007, foi a entrega de 48 casas aos artesãos sem moradia, construídas em um terreno doado pela Prefeitura, no Bairro Bom Retiro.
 
Hoje, 1.200 pessoas são atendidas pela organização, que se mantém por meio da venda de artesanatos, doações e leis de incentivo. Em 2012 foram abertas 210 vagas gratuitas - em todas as oficinas -destinadas a maiores de 18 anos, de baixa renda e que têm por objetivo multiplicar o aprendizado.
 
O Salão do Encontro é referência nacional e internacional em assistência social e na fabricação de produtos artesanais. A organização recebe, rotineiramente, estrangeiros em busca de capacitação nas oficinas oferecidas. As peças produzidas no Salão do Encontro são expostas em feiras em todo o país, e, anualmente, integram a Unilar, o Congresso Mineiro de Biodiversidade (COMBIO) e a Feira Nacional do Artesanato. 
 
Por Aline Xavier
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