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Enviado por marina em 11/01/2012 17:55:22 ( 2739 leituras )

Nascido em 14 de julho de 1947 na cidade de Paraguaçu, no sul de Minas, Jeferson iniciou seus estudos naquela cidade para, em 1966, mudar-se para Belo Horizonte e terminar o que, na época, era chamado de Curso Clássico. Naquele ano, o Brasil vivia sob o regime militar. “Fiz o clássico ao invés do científico porque a minha área de interesse já era a de Letras.”
Ainda na cidade de Paraguaçu, com a ajuda do primo, João Eustáquio de Andrade, Jeferson foi, com apenas 16 anos, redator do jornal “A voz da cidade”, um periódico que circula no município até hoje. “O João me falou que eu escrevia muito bem e que me queria como redator do jornal. Apesar dele ser o diretor, não tinha tempo para cuidar do jornal porque, além de ser farmacêutico, era também o prefeito da cidade. O jornal não dava dinheiro e ele não tinha como me pagar um salário fixo e então, me indicou para ser funcionário da Caixa Econômica Estadual que, na época, tinha inaugurado uma agência lá em Paraguaçu. Posteriormente, pedi transferência para Belo Horizonte para onde me mudei em 1966, tornando-me o responsável pelo boletim interno da Caixa”.

 

AS EDIÇÕES MARGINAIS EM MEIO À CENSURA
Na década de 70, em meio à censura que estava presente em todo o país após o AI-5, Jeferson resolveu criar suas próprias publicações, denominadas “Edições Marginais”. Eram pequenos livros de bolso mimeografados. “Esse trabalho começou em 1973. Eu era dono de uma mimeografia e convidava alguns escritores para participar. O primeiro número saiu com Murilo Rubião, Luiz Vilela e Roberto Drummond e obteve muito sucesso, foi bastante comentado em colunas literárias e algumas revistas da época fizeram o registro do lançamento. Era uma maneira de burlar a censura e movimentar a área literária, afinal, os intelectuais eram um alvo preferencial”.   

 

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Jeferson relembra que o jornal “Movimento”, um periódico alternativo que circulava em quase todo o país, surgido em 1975, não publicava os seus contos. “Eu mandava colaborações para lá, alguns contos que eram pura literatura, mas todos os meus textos eram censurados. Um dos contos, chamado ‘Nanquim’, não tinha nada para ser proibido. Foi então que perguntei a eles por que não publicavam os meus contos, e recebi em resposta que a ordem era de não deixar sair o meu nome, independentemente do conteúdo do texto”.
Em 1977, o chamado Manifesto dos Intelectuais recolheu milhares de assinaturas em todo o Brasil, em protesto contra a censura de teor cultural, e contou com a colaboração de nomes de peso. “Pedi transferência da Caixa Econômica Estadual para a Imprensa Oficial, porque queria trabalhar no suplemento literário, que, na época, era dirigido pelo Murilo Rubião. Anos depois, descobri que uma ordem vinda do SNI (Serviço Nacional de Informação) proibia que eu trabalhasse na Imprensa Oficial do estado devido às minhas atividades contra a ditadura militar e, principalmente, por eu ter sido um dos líderes do manifesto contra a censura. Fomos à Brasília, eu, Nélida Piñon, Lygia Fagundes Teles e Hélio Silva para entregar as assinaturas para o Armando Falcão, então Ministro da Justiça, que apareceu na televisão dizendo que a censura era branda. Foi uma grande palhaçada, porque nós tínhamos livros, peças de teatro, filmes, músicas, jornais como ‘O Pasquim’, tudo censurado e foi isso que nos motivou a protestar”. Até aquele momento, mais de 400 títulos de autores brasileiros e estrangeiros já haviam sido tirados de circulação, dentre os quais estavam as obras de Rubem Fonseca, “Feliz Ano Novo” lançado em 1975 e “Aracelli, meu amor”, de José Louzeiro, de 1976. Segundo Jeferson, na época, eles obtiveram o valioso apoio do Sindicato de Jornalistas de Belo Horizonte, dirigido pelo jornalista do Estado de Minas, Dídimo de Paiva.

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Um grupo de escritores daquela geração, formado por Jeferson de Andrade, Antônio Barreto e Luiz Fernando Emediato, de Belo Horizonte, Domingos Pelegrini do Paraná, Caio Fernando Abreu de Porto Alegre e Júlio César Monteiro Martins de Niterói, além de serem amigos, seguiram quase que pela mesma trajetória e também lançaram as “Edições Marginais” com seus textos. Posteriormente, enviaram o livro “Histórias de um Novo Tempo” para a editora Codecri, a mesma que editava “O Pasquim” e, ao conseguir a aprovação do Ziraldo, a obra foi lançada no ano de 1977, logo após o manifesto. “A gente era chamado de subversivo. Eu não estava conseguindo emprego aqui em Belo Horizonte e, por coincidência, fui ao Rio de Janeiro explicar detalhes sobre o livro e conheci o Ziraldo, que me propôs: ‘Já que você quer uma experiência em editora, por que você não vem para o Rio?’. No fim daquele ano, me mudei para a capital carioca”.
Jeferson conta que a censura ainda existia, mas, por ter ido para “O Pasquim”, onde todos eram observados de perto, ela já não incomodava tanto. Em decorrência do êxito do livro lançado pelo grupo, os autores começaram a despontar no cenário da literatura nacional. “Foi um grande sucesso, cerca de vinte mil exemplares foram vendidos. Para seis autores totalmente desconhecidos nacionalmente, foi muito bom,, nos projetou. Tanto que todos seguiram carreira literária. Eu, por exemplo, tenho doze livros publicados. Acho que as ‘Edições Marginais’ ajudaram na divulgação de autores que estavam começando e de autores que, na época, estavam até meio esquecidos, como é o caso do Murilo Rubião”.


UM DRUMMOND CHAMADO CARLOS
Após o trabalho na editora Codecri exercendo algumas funções administrativas internas, Jeferson foi convidado para trabalhar na Record, em 1979. Quatro anos depois, Alfredo Machado, dono da editora, deu a ele o cargo de editor de autores brasileiros. “Até então, a Record publicava poucos escritores nacionais, pois o espaço maior ficava reservado a estrangeiros e best-sellers. Ela já tinha Jorge Amado e Graciliano Ramos como autores de peso, mas não expandia com outros mais novos na literatura brasileira. A minha primeira conquista foi histórica, com Carlos Drummond de Andrade”.
Na época, a publicação das obras de Drummond ficava a cargo da editora José Olympio, que chegou à falência exatamente no período em que Jeferson assumiu a publicação de autores nacionais da editora Record. “O Carlos Drummond começou a receber convites de várias editoras para a transferência de suas obras e o Alfredo Machado, que tinha muita sensibilidade para esse ramo, me falou: ‘Vocês são mineiros, vocês é que se entendam. Eu não vou negociar com o Carlos, vai ser você’. Eu já conhecia o Drummond por telefone, desde a época da Codecri, mas nunca tinha falado com ele pessoalmente”.
Em 1983, a editora Record havia feito uma coleção de livros infantis intitulada “Abre-te Sésamo”, com histórias ilustradas de autores estrangeiros e nacionais, como Fernando Sabino, Graciliano Ramos, Victor Hugo, Voltaire e o próprio Drummond. “Quando ficou pronta, o Machado pediu para que eu levasse a coleção à casa do Drummond. Liguei para ele e marquei um encontro para o dia seguinte, às dez horas. Eu fiquei tão emocionado de finalmente poder conhecê-lo, que levantei bem cedo para não chegar atrasado de forma alguma e, ao descer em Copacabana, me sentei na calçada e fiquei olhando o mar. Exatamente no horário em que havíamos combinado, pedi ao porteiro que me anunciasse e, acredito, a pontualidade foi o primeiro ponto que eu ganhei com o Drummond, porque ele não suportava atrasos. Ao abrir a coleção, ele falou: ‘Mas que belo presente para o dia de hoje!’. Na verdade, eu achei que o ‘hoje’ fosse só uma maneira poética de se expressar”.

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Jeferson conta que, enquanto conversavam, Drummond se ausentou por diversas vezes da sala para atender ao telefone no escritório, que insistia em tocar. “Depois de muitos telefonemas, Drummond disse ‘O telefone está uma barra hoje’, e, quando perguntei ‘Mas é todo dia assim?’, ele devolveu ‘Não, afinal de contas, não é todo dia que se faz oitenta e um anos’. Eu fiquei tão ansioso que, naquele dia, ao invés de olhar pelo menos a primeira página do jornal, fui olhar o mar. Ao ouvir isso, eu ri e, quando perguntado o motivo, respondi que eu devia ser a única pessoa no Rio de Janeiro que não sabia que ele estava fazendo aniversário”.
Conversaram durante um tempo e, ao final, Drummond pediu que Jeferson voltasse na semana seguinte, porque, naquele dia, o telefone estava tocando demais. O escritor virou frequentador habitual da casa do poeta, que acabou assinando o contrato com a editora Record, inclusive para a reimpressão de toda a sua obra. “Tivemos tanto contato profissional que nos tornamos amigos. Eu tenho muita coisa para contar sobre o Carlos Drummond de Andrade, pretendo escrever um livro sobre ele”.


A TRÁGICA HISTÓRIA DE ANNA DE ASSIS
História conhecida nacionalmente, a vida de Anna de Assis foi marcada por amor, traição e morte. Sua paixão por Dilermando, fora do casamento com Euclides da Cunha, resultou na trágica morte do escritor e deixou Dinorah, irmão de Dilermando, paraplégico. Ao saber um pouco mais sobre a história, Jeferson quis relatá-la em livro, para que as memórias de Anna de Assis não se perdessem com o tempo.
Em 1984 Jeferson foi apresentado a Judith Ribeiro de Assis, filha de Ana de Assis que, na época, queria publicar um livro sobre sua mãe. “Quando conversei com ela, expliquei que o diretor da Record tinha interesse em publicar o livro sobre a Ana de Assis, mas recebi a notícia de que ela não tinha a obra pronta e estava procurando alguém que pudesse escrevê-la. Depois de me contar um pouco da história, disse que podia fazê-lo porque, além de editor de autores brasileiros da Record, eu era também escritor. A história era muito interessante e eu queria escrevê-la”.
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Jeferson estava com 40 anos e dona Judith o achou muito novo, não tendo muita segurança em apostar na idéia. O escritor insistiu e retornou à sua casa outras vezes para tentar convencê-la. “Até que um dia, ela me contou que havia sonhado com sua mãe e que Anna havia lhe pedido para olhar para o céu. Lá em cima, havia algumas nuvens que formavam as letras ‘J’ e ‘A’ e, num primeiro momento, ela interpretou como ‘Judith Assis’. Depois, olhou novamente e pensou em ‘Jeferson de Andrade’ e que aquelas letras também diziam ‘Já’. Ela abriu um baú repleto de documentos e cartas e me falou ‘Agora, você leva isso para casa e começa a escrever o livro’”.
O autor dedicou quatro anos à redação da obra, recolhendo depoimentos e analisando os documentos e cartas do baú. “A Anna de Assis causa admiração em  qualquer pessoa. Eu virei admirador dela, escrevi a história com bastante emoção e sensibilidade. Tudo o que ela fez, tudo o que ela foi, chega ao coração de qualquer homem e mulher, porque ela foi uma mulher pioneira. A principal frase dela, no livro, é histórica: ‘Eu não errei, eu amei’”. O livro, lançado em 26 de agosto de 1987 e um best-seller na época de seu lançamento, já teve treze edições e vendeu mais de cinquenta mil cópias.
O sucesso da obra chamou a atenção da Rede Globo de Televisão, que, no ano de 1990, exibiu a minissérie “Desejo”. Neste ano de 2009, completam-se 100 anos da morte de Euclides da Cunha e, mais uma vez, o assunto volta à tona. Segundo Jeferson, recentemente, foi assinado um contrato com a editora Record para o lançamento de livros de bolso de “Anna de Assis”, a fim de popularizar a obra.
 

O TRABALHO COMO EDITOR
No tempo em que trabalhou em editoras, Jeferson de Andrade colaborou para a primeira publicação de escritores que, hoje, são nacionalmente reconhecidos pelo seu talento. “Eu comecei a vasculhar outras capitais, porque, na época, só quem morava no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde estavam concentradas as grandes editoras, conseguia se lançar. Escritores periféricos, de outras partes do país, acabavam sendo deixados de lado”.
Em 1992, Jeferson mudou-se para São Paulo e lá permaneceu por quatro anos, período em que auxiliou o amigo Luiz Fernando Emediato na estruturação de sua editora, chamada “Geração”. “Tivemos divergências, eu saí da editora e resolvi voltar para Belo Horizonte porque não me adaptei à cidade. Tem muita tragédia diária, uma  hora é enchente, em outra é engarrafamento. Isso não é vida”.
 

A LUTA CONTINUA
Ao voltar para Belo Horizonte, Jeferson começou a escrever críticas literárias e reportagens culturais para o jornal Estado de Minas entre os anos de 1997 e 1999. “Nesse período, eu achei que havia espaço para lançar um jornal aqui no bairro Padre Eustáquio, região onde sempre residi. Lancei o periódico no ano de 1997 e o mantenho até hoje”. A “Folha do Padre Eustáquio” circula mensalmente na região noroeste de Belo Horizonte e conta com a colaboração dos próprios moradores para a sua composição.
Jeferson de Andrade continua exercendo a sua paixão: escrever livros. No ano de 2007, lançou “Nunca seremos felizes”, um romance que se passa no Brasil, da década de 1950 até os dias atuais. “O livro é, basicamente, uma crítica. Como escritor, jornalista e repórter, sempre procuro mostrar os dias atuais para que eles fiquem registrados. Desse modo, sempre que posso, faço as críticas dentro do jornal e também na minha literatura”.
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O TRABALHO DE ESCRITOR
Além do seu último livro lançado, Jeferson de Andrade possui outros onze já publicados. Dentre os contos, estão “No Carnaval, Confetes e Serpentinas” (1973), “Um Homem Bebe Cerveja no Bar do Odilon” (1978), “A Origem de Deus e de Tudo” (1983) e “A Falta que Faz Um Gol” (2002). O primeiro romance veio em 1985, com “Um Segredo de Verão”, tendo lançado também “Anna de Assis – História de um trágico amor” (1987) e “Para Sempre, Flamengo” (1996). Além desses, Jeferson é autor do livro de ficção-reportagem “Senhora e Senhores, A Voz do Brasil” (1980), do livro “Um Jornal Assassinado – A última Batalha do Correio da Manhã (1991) e “Um Peixe Nada em Minha Memória” (1999), que apresenta crônicas e reportagens.
Dentre as antologias das quais participou, além de “Histórias de um Novo Tempo” e “Edições Marginais/3”, ambos de 1977, estão também “Histórias Mineiras” (1984), “Um Prazer Imenso” (1986), “Ficções/1” (1987) e “Contos de Cariocas de Todos os Cantos” (1987).
Para entrar em contato com Jeferson, envie um e-mail para o endereço eletrônico jefersondeandrade@ig.com.br ou ligue para (31) 3441-8303.

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