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Enviado por admin em 18/08/2011 11:49:40 ( 2073 leituras )
"A minha visão de mundo tem muito a ver com o lugar de onde eu vim".

Nascido na periferia de Belo Horizonte, Eduardo de Jesus integra a diretoria da Associação Cultural Videobrasil, participa do conselho editorial do Suplemento Literário de Minas Gerais e, atualmente, é professor da Faculdade de Comunicação e Artes (FCA) da PUC Minas, onde leciona as disciplinas "Cibercultura e Produção Digital", "Cinema e vídeo" e "História e Análise da Produção Audiovisual Contemporânea". Na FCA, coordena também o Centro de Experimentação em Imagem e Som (CEIS) juntamente com o professor André Brasil.
 
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 Por Osias Ribeiro Neves e Natália Boaventura

Mineiro é assim mesmo. Gosta de prosear e, quando se trata de Eduardo de Jesus, a prosa não é só boa, é de conteúdo, profunda, humana e divertida. Dudu continua sendo a mesma pessoa cheia de sonhos que conheci no final dos anos 80, o mesmo menino, filho de operário, de convivência rica com outros filhos de operários, na vila cercada por muros de uma fábrica de tecidos no centro da Cidade Industrial de Contagem.

Aceitando o meu convite, Eduardo gentilmente compareceu ao Escritório de Histórias e nos brindou com sua inteligência e sensibilidade numa tarde inesquecível de converseio de longa duração que, ainda hoje vibra em mim, como um mantra. Poesia, filosofia, arte, educação, sociologia, antropologia, videologia, memória, história, literatura e muito mais coisas costuradas, numa conversa aberta que aponta em todas as direções da multiplicidade do ser humano, tão funcionalmente reduzido às suas relações com o capitalismo liberal imediatista e veloz.

Apaixonado pelas imagens

“Quando cheguei à universidade, já tinha interesse pela imagem, entendida na época como cinema, principalmente cinema brasileiro, de linha mais experimental. O meu desejo primeiro era ser diretor de arte numa grande revista em São Paulo, mas, logo percebi, nos caminhos que se desenhavam a partir do meu contato com o conhecimento, que eu precisaria experimentar e vivenciar outras coisas. Na minha trajetória, passei por uma grande empresa de informática, atuando na área de marketing e comunicação. Aprendi coisas interessantes, mas, aos poucos, retomei a idéia original das imagens e me encantei pelo vídeo. Em 1991, eu estava quase me formando. Migrei para uma produtora e me aproximei do universo experimental das imagens, coincidentemente, quando acontecia o primeiro festival de vídeo aqui em BH. Fiquei ainda mais seduzido pela imagem eletrônica e pela potencialidade que ela tinha. Isso me levou a estudar mais e comecei a produzir vídeo, videoclipe e outros trabalhos de videoarte. De lá, migrei para outra produtora de um grupo de amigos e tornei-me sócio da empresa. Mesmo sendo um trabalho interessante, com o tempo fui ficando ensimesmado pelas rotinas. Eu estava direcionado para me tornar um realizador de vídeo e plantar um trabalho artístico no campo da videoarte, mas foi exatamente aí que decidi alterar meu roteiro de vida e mudar a minha história. Saí da Ciclope, virei free lancer e passei a fazer direção de arte, direção de vídeo, comercial de televisão, vídeo institucional, etc. Nesse meio tempo, comecei a dar aula na Comuna, incentivado por minha esposa, que era de lá. Gostei das aulas, entrei por esse caminho e decidi fazer mestrado, começando com uma disciplina isolada na UFMG. O convite para entrar na PUC veio em 98 e, como eu já estava me preparando para o mestrado, aceitei e comecei a trabalhar lá em 99.

Os dois anos que me dediquei aos estudos do mestrado foram ótimos, com uma vida bem simples. Naquela época, dava pra viver com pouco dinheiro sem acumular muita coisa. Fiz o mestrado orientado pelo César Guimarães. Costumo brincar que a minha vida é dividida em a.C e d.C: antes de César, quando eu lia de tudo e não conseguia seguir um rumo e depois de César, que me pôs na linha. O César é uma combinação de conhecimento teórico, intelectualidade máxima e afeto, carinho, tranqüilidade.”

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 Os olhos transbordam imagens fabris da infância

Na infância, Eduardo morou em uma das fábricas da região industrial de Contagem, local responsável pela formação de sua visão estética. “Esteticamente, eu adorava aquele lugar, porque tinha aparência de uma rede de proteção ao mundo, dando a impressão de que nem o tempo podia entrar lá”. Mesmo após ter saído daquele ambiente e seguido caminhos diferentes, o meio fabril sempre esteve presente na sua vida, ainda que de formas não declaradas. “Comecei a gostar muito do Robert Smithson, um artista americano que morreu jovem, num acidente de avião. Eu olhava para os trabalhos desse cara e gostava muito, mas não entendia bem por que. Mais tarde, descobri que ele morava em New Jersey, próximo à região industrial de Nova York. Ele veio do mesmo contexto que eu e, com tantos artistas, eu fui gostar justamente dele, que tem uma história parecida com a minha.” Estética e criticamente, Eduardo não é um burguês da zona sul, mas admite possuir um olhar sofisticado pelo fato de apreciar o que é experimental, contemporâneo. “Meu pai ainda trabalha na mesma fábrica e, de vez em quando, digo que estou precisando ir até lá para ver aqueles galpões, os telhados, que eu acho tão bonitos. Ele acha estranho, fala que aquilo é feio demais. Talvez eu tenha misturado as duas coisas.”

Eduardo morou na “vila operária” até seus vinte e poucos anos e conta que a convivência naquele ambiente era muito amistosa. “Minha mãe fazia novena, era ‘santo’ andando de casa em casa, a meninada comendo de tudo e era ali, no meio fabril, onde todas as crianças brincavam juntas. Na casa dos meus pais tinha um punhado de restos das coisas da fábrica, a gente ficava mexendo e tudo isso contribuiu para que eu tivesse essa proximidade com o ambiente da indústria, fazendo com que, toda vez que visito um lugar em que há alguma fábrica, faço questão de conhecer.” Olhando para o passado, Eduardo percebe que a maioria de seus amigos seguiu a carreira de operário da fábrica e, diante disso, põe-se em dúvida se realmente deveria ter ido embora ou se o melhor era ficar e seguir o curso da vida industrial. “A vida vai acontecendo... Quando eu morava na fábrica, ao mesmo tempo em que eu queria ficar mais perto de Belo Horizonte, essencialmente pelo cinema, eu queria permanecer na região fabril. Até hoje a cidade industrial é um lugar que eu gosto muito e, de vez em quando, vou até lá para passear, andar naqueles becos, naquelas ruas que só eu ou quem mora lá conhece. A minha visão de mundo tem muito a ver com o lugar de onde eu vim.”

Da vila operária para o mundo

Em contrapartida à área da produção audiovisual, Eduardo voltou-se para o pensamento da arte eletrônica, atuando em curadoria. Foi daí que surgiu o convite do Ministério da Cultura para atuar em São Paulo. Na ocasião, Eduardo teve oportunidade de conhecer melhor Solange Farkas, diretora do Videobrasil, um festival internacional de arte eletrônica do qual ele já havia participado por meio de algumas mostras competitivas e já havia trabalhado no jornal do evento com alguns amigos, em Belo Horizonte. A empatia entre os dois foi imediata, o que contribuiu para que, em 2001, Solange convidasse Eduardo para trabalhar no festival, dando início à sua relação com o Videobrasil. “A Solange é uma pessoa super generosa e todos os contatos dela são meus também. Com isso, comecei a ter muitos contatos em relação à produção artística, principalmente aquela voltada para o vídeo, o que despertou, para mim, uma espécie de inserção no Brasil e no mundo inteiro”.

Em 2003, foi aprovado para uma bolsa em Barcelona e, no período em que morou na Europa, participou da pesquisa “Desenvolvimento de arte e mídia na África, Ásia e América Latina”. Nesse contexto, Eduardo afirma ter constatado sua ligação com o continente africano. “Eu precisei sair do Brasil para descobrir minha origem africana. Meu avô era preto e foi então que eu comecei a entender tudo. Hoje em dia, sou super fã de arte contemporânea da África, de vários escritores africanos e o período que estive em Barcelona serviu para estreitar essa conexão. Era diferente de viver no Brasil porque, apesar de ser uma vida com pouco dinheiro, vivia-se com dignidade, o que aqui é mais difícil.”. Encantado com tudo o que viveu e conheceu, ele conta que a experiência na Europa foi extremamente interessante, uma vez que o circuito cultural é muito rico, oferecendo opções diversificadas de cinema e exposições.

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De volta ao Brasil, Eduardo estava com a mente mais aberta para as coisas, com sede de novas experimentações, fazendo com que o vídeo fosse a opção ideal, já que sua natureza também havia se alterado nos últimos anos. “Antes o vídeo era uma coisa apartada da arte contemporânea e, agora, numa exposição como a Bienal, só se vê vídeo. De periférico, o vídeo passou a ser central - e a gente também. A Solange brinca que antes nós não éramos chamados para nada e hoje estamos em tudo”. Eduardo conta que esse mesmo movimento, de certa forma, aconteceu também em sua carreira, fazendo com que, cada vez mais, ele se aproximasse da arte contemporânea, dedicando-se a estudos nessa área. Além da pesquisa em que se envolveu, ele fez um curso em Barcelona que o introduziu nesse campo, ampliando sua rede de conhecimento. “Acho que é por aí que eu estou agora, menos na comunicação e mais na arte contemporânea”.

Classe social e universidade

Depois da experiência de ter vivido em outro país, numa realidade totalmente diferente do Brasil, Eduardo teve ainda mais bases para perceber as defasagens do nosso meio. Segundo ele, na Espanha, a distribuição de renda é bem mais razoável que a nossa, seguindo um modelo de “classe média expandida” e é muito agradável imaginar que a república construída lá conseguiu propiciar às pessoas maiores cuidados com a saúde, lazer, educação e qualidade no transporte público. “A elite do Brasil é burra. Eu não acredito que a universidade consertará esse cenário, porque essa mesma elite está se formando na própria universidade e se guia ainda pelos mesmos caminhos. A verdade é que as pessoas são funcionais. A universidade forma indivíduos para o mercado, não para a vida. Enquanto um projeto institucional, o ambiente universitário tem uma preocupação em torno da formação humanista, mas, na maioria das vezes, ela não se efetiva”.

Na percepção de Eduardo, a classe média atual não permite que seus herdeiros não estudem, obrigando-os a fazer um curso superior a qualquer custo. Essa realidade contribui ainda mais para que se tenha, no mercado, profissionais insatisfeitos e desalinhados de uma formação humana. “Às vezes, o menino gosta de jogar bola, ou quer ser trocador de ônibus, ou quer abrir um mercadinho, ou não quer fazer nada. Por que todas essas pessoas precisam estudar? Elas não precisam, estuda quem quer e isso não vai fazer diferença quanto ao indivíduo ser melhor ou pior. O que realmente conta são as posturas éticas que ele tomará durante a vida. Talvez a universidade seja a ponta do iceberg, porque ela não é diferente da sociedade da qual é parte. Algumas universidades efetivamente operam em torno de um foco de resistência para não se deixar levar. Entretanto, pensando de uma forma mais pragmática, aqui no Brasil a educação virou um negócio e reflete diretamente a situação da vida social.”

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Nem tudo pode ser medido em dinheiro

A funcionalidade está atravessando as mais diversas áreas, fazendo com que, hoje em dia, tudo seja medido e contabilizado. “O capitalismo está chegando ao ponto de minar as relações sociais e as pessoas vêm o trabalho como se fosse algo estruturante. Elas querem ter sucesso, ser reconhecidas e se esquecem que isso pouco importa. Eu quero ser reconhecido como uma pessoa boa, ética e correta, isso sim”. Eduardo cita uma entrevista com Tim Berners-Lee, o criador do “www”, na qual o cientista afirma não entender porque pessoas perguntam se ele é rico, já que, para ele, o sucesso de uma pessoa ou o tanto que ela contribuiu para algo não se mede em dinheiro. “Eu acho que as pessoas têm, de certa forma, que priorizar se querem ganhar dinheiro ou se querem só ganhar dinheiro. Dinheiro é uma coisa boa, nós sabemos, mas nem tudo está nele, eu tenho clareza disso”.

O cantor Gilberto Gil, na música “Divino Maravilhoso”, afirma sabiamente que “É preciso estar atento e forte”. Para Eduardo, precisamos ficar atentos para não cair na armadilha do capitalismo e não reproduzir, nas nossas relações sociais e pessoais, as relações de mercado, em que tudo é feito visando o lucro ou algo em troca. “Esse negócio de ‘só pelo prazer’, me parece, já não existe mais. Até o sexo virou uma competição”.

A grande arte é resistir

Marx afirmou que o capital precisa de novidades e que ele sempre vai explorar o novo. Entretanto, é necessário prestar atenção a essa realidade porque, nos dias atuais, tudo o que, porventura, pode ser novo, muitas vezes sofre um processo de “corrupção” e é inserido no mercado. “Eu gosto muito do funk carioca como manifestação cultural e, a princípio, ele era um forma de resistência tremenda. É música de preto, de pobre, favelado, que fala daquela realidade e que foi apropriada pela sociedade. Outro dia, eu estava em São Paulo e vi um anúncio que dizia: ‘DJ Malboro na My Love’. Pronto, o negócio não vale mais nada. Essa era a boate mais elitizada de São Paulo e o engraçado é que, agora, lá pode gostar de funk carioca e nos outros lugares não. No contexto da modernidade, seria muito interessante que tivessem focos de resistência. Eu sou fã do Jean Claude Bernadet, um cineasta fantástico. Outro dia, em seu blog, ele contava que, ao chegar num determinado lugar, a moça que estava à porta perguntou se poderia tirar uma foto dele por se tratar de um procedimento do local para a entrada. Quando o pedido foi negado, ela alegou que estava fazendo o seu papel, ao passo que ele devolveu: ‘E eu, o meu, de resistir’.”

O período da ditadura militar fez com que a universidade se transformasse num foco de resistência em todos os âmbitos. Na experiência contemporânea, Eduardo não acredita que tenhamos mais esses locais de resistência e que a universidade deveria ou poderia ser um desses focos, mas, na lógica da era moderna, assim como o inimigo é difuso, esse meio também o é. “Eu vou resistir e fico achando que, nesse contexto de um capitalismo extremamente desenvolvido e infiltrado nas relações sociais, seria ideal que se conseguisse um lugar que fosse uma resistência a isso. Os lugares existem, mas são pulverizados, variando entre o cinema, a arte, a música, o videoclipe. Os focos de resistência são nômades.”

A droga da felicidade na infelicidade da droga

Há muita pressão sobre a juventude, o que reflete principalmente no funcionalismo, já que, atualmente, o indivíduo tem que ser bom em tudo. “É uma espécie de espírito Prozac: ‘Forever youg and happy’. Você tem que ser eternamente jovem e feliz, vinte e quatro horas... que coisa mais chata. Se eu estou triste ou achando as coisas ruins, não vou contar pra todo mundo, mas preciso falar pros meus amigos e até mesmo ficar triste.”

Existem, hoje, as “drogas da felicidade” e muitas pessoas precisam dela, mas em quantidade muito menor do que a que a indústria farmacêutica transfere para a sociedade. Além disso, esse tipo de remédio causa dependência, interfere no cérebro e no centro das emoções do ser humano, devendo ser receitado prioritariamente por um especialista. “A fluoxetina, o Prozac e outros não foram feitos pra gente ficar ‘very happy today’ o tempo inteiro. Eu acho que está tudo relacionado com o modus vivendi, que é também uma questão da universidade, da funcionalidade, com o modo de apropriar o espaço da cidade, com a divisão do dinheiro. Tem a ver até com o modo de se divertir.”

Diferentemente iguais

No contexto da modernidade, é cada vez mais difícil a diferenciação. Muitas vezes, por mais que as subjetividades sejam diferentes, os lugares favorecem um mesmo tipo de experiência. Além disso, mesmo com toda a evolução e diversas mudanças que a sociedade viveu, grande parte dela ainda tem muita dificuldade em aceitar o que é diferente. “Tem uma frase do Paulo Virilio, um filósofo francês, que eu gosto muito: ‘Nunca se pagou tão caro para não estar’. Você sai de um lugar que é de um jeito e vai para outro que é exatamente igual. A primeira vez que estive em Barcelona, foi antes da Comunidade Européia e, quando voltei para morar mais um ano, com o euro tudo mudou. O ‘muquifo’ em que eu costumava ir, onde o cara pegava o dinheiro com a mão, fazia o sanduíche, espremia a laranja e servia tudo, foi modificado. Ficou tudo mais ou menos com a mesma cara, tudo moderninho, tudo lounge. Hoje em dia, passear, divertir e comprar acabou virando a mesma coisa. Por que um pai de família leva um menino, domingo de manhã, para comer um McDonald´s no shopping center, com essa cidade cheia de parques e praças? Simplesmente para não encontrar com aquilo que é diferente, e o shopping é o lugar dos iguais. A cidade moderna era aquela que se organizava em função dos eixos, saúde, lazer, o lugar de morar. Agora, tem-se um lugar só para comprar... que coisa mais estranha.”

Eduardo acredita que somos uma sociedade urbana e nascemos para viver na cidade, que foi feita, inicialmente, para abrigar a diferença. “Na cidade, seríamos obrigados a conviver com o diferente, o que nos faria melhor. No modelo de urbanização atual, o bacana é o shopping center, uma homogeneização total, onde as pessoas preferem se relacionar com os iguais. Isso está criando uma geração de monstros e estranhos, porque só conseguem conviver com pessoas que são iguais a eles.”

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Viver não é ser celebridade

“O ambiente em Barcelona é muito diferente do Brasil. O espaço público é público, tanto que é comum você ver um executivo tirar o terno, virar do avesso e tirar um cochilo num canteiro de praça. Lá, piquenique, por exemplo, é uma prática comum a todas as classes sociais e eu e a Pati fazíamos isso todos os fins de semana, nos parques. Quando eu voltei e sugeria aos meus amigos fazer um, eles diziam que aqui ninguém faz piquenique e que a Europa não tinha me feito bem. Com o tempo, eu percebi que é a diferença da função do público e do privado. Aqui o bacana é o privado, não o público”.

O Big Brother Brasil, reality show exibido pela Rede Globo há oito anos, é uma grande expressão contemporânea. Segundo Eduardo, o programa é uma narrativa em que as pessoas querem se conhecer, mas de uma forma asséptica, sem se envolver, sem que o outro o conheça. “É como se fosse um prazer voyer, o que é estranho, porque, supostamente, a vida comum é daquele jeito e não é. Às vezes, a minha é uma loucura, mas é muito mais interessante do que aquele ambiente de ‘bombados’ e ‘gostosas’ que querem representar o mundo”. Eduardo acredita que essa cultura de celebridades, experimentada por nós há pouco tempo, trará repercussões profundas para o nosso modo de viver e relacionar. “Eu não preciso ser uma celebridade, não preciso ter exclusividade para nada. Estou mais interessado na vida de qualquer outra pessoa que consiga ter alguma singularidade pelo fato de ter uma vida ordinária”.

O velado preconceito

“Aqui, no Brasil, tudo fica ainda mais complicado devido à desigualdade social acentuada, gerida por uma elite ignorante e uma tropa de políticos que não sabem o que estão fazendo. Não se pode generalizar porque, no meio de tantos, aparece o Joaquim Barbosa e eu acredito nele. Em uma entrevista dada à Folha de São Paulo, ele disse que se as pessoas achavam que iam colocar um negro submisso no Supremo, estavam muito enganadas. Lá na universidade, muita gente falou ‘Mas ninguém falou nada de negro’. E precisa falar? Você que é branco não, mas se fosse preto, falaria toda hora. Quando opera na linguagem, o negócio é sério. Não se pode nem falar que a pessoa é preta: é negro, afro-descendente. Eu acho muito chata essa história.”

O preconceito brasileiro é mais social, tanto que, as pessoas menos favorecidas social e economicamente são proibidas de freqüentar certos locais nas cidades. Eduardo diz que, dificilmente, veremos pessoas de classes muito baixas em um shopping, a não ser que elas se “fantasiem”. A parte da sociedade que se encontra à margem está tentando se inserir e, muitas vezes, busca na aparência um modo para isso. “A primeira vez que eu fui ao shopping Oiapoque, em Belo Horizonte, descobri o ‘império do efêmero’ e entendi que a explosão de roupas de marca vinha dali. O que eu acho ruim é a pessoa recorrer a isso para criar alguma singularidade.”

A periferia da resistência

Atualmente, a periferia se mostra como resistência ao preconceito, um lugar da diversidade e do impulso à cultura. O centro deixou de ser um espaço físico e, como algo móvel, se localiza onde você está. “Eu gosto da periferia e acho que, o fato de essa ser a minha origem, fez com que eu nunca saísse de lá. Eu gosto daquilo que está na borda, das coisas que estão no limite, das experiências que não são muito características. Acho, inclusive, que a produção cultural que vem da periferia é o que tem alimentado a cultura brasileira, de certo modo. Há pouco tempo, ganhei uma seqüência de livros editados pela socióloga Clarice Libânio sobre conhecimentos na periferia. A Clarice mapeou receitas das vilas e favelas de Belo Horizonte e reuniu nesse livro. Existe um conhecimento ali e eu acho que é muito complexo para a intelectualidade brasileira, que é ligada à elite, compreender que há um saber que vem da vida e não está sob o domínio deles. Hoje, a experiência da periferia é muito mais interessante, muito mais rica, porque transcendeu uma questão física”.

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Quem é Eduardo de Jesus

Eduardo de Jesus graduou-se em Comunicação Social pela PUC Minas (1991), e continuou galgando o caminho de conhecimento, da experimentação e da produção cultural, principalmente no que diz respeito à arte vídeo eletrônica. Na UFMG, tornou-se mestre em Comunicação Social (1999-2001) com a pesquisa “Do tempo que resta ao tempo que passa – a experiência estética e o tempo nas obras de mídia arte”. Fez doutorado na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo – USP com a pesquisa: “Timescapes: espaço e tempo na artemídia”, sob a orientação do prof. Dr. Gilbertto Prado.

Além de integrar a diretoria da Associação Cultural Videobrasil, participa do conselho editorial do Suplemento Literário de Minas Gerais e, atualmente, é professor da Faculdade de Comunicação e Artes (FCA) da PUC Minas, onde leciona as disciplinas “Cibercultura e Produção Digital”, “Cinema e vídeo” e “História e Análise da Produção Audiovisual Contemporânea”. Na FCA, coordena também o Centro de Experimentação em Imagem e Som (CEIS) juntamente com o professor André Brasil.

Ao longo de sua trajetória, Eduardo de Jesus atuou na curadoria de uma série de mostras audiovisuais e orientou vários projetos de graduação, atividades que exerce até os dias atuais. Ganhou prêmios e títulos importantes, bem como produziu trabalhos renomados entre artigos, livros e vídeos. “Imagens Híbridas”, um dos projetos de graduação que Eduardo orientou, foi premiado como melhor projeto experimental na área de vídeo no Intercom, em 2001. Um de seus livros, “Cultura em Fluxo”, foi organizado no ano de 2005 com Geane Alzamora, André Brasil e Carlos Falci e editado pela editora da PUC Minas. Seu mais recente trabalho em vídeo, “Ainda agora mesmo”, foi lançado no Festival de Curtas de Belo Horizonte (2004), exibido no Festival Internacional de Vídeo de Clermont Ferrand (2005) e na Mostra de Cinema de Tiradentes (2005).

 

 

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