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Enviado por admin em 18/08/2011 11:42:44 ( 4359 leituras )
Gislayne Matos faz da arte de contar histórias uma ferramenta para modificar o cotidiano em empresas, escolas e instituições.  
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 Por Natália Boaventura 

As histórias permeiam desde o universo infantil até o adulto. Através delas, as tradições, os valores e toda a identidade dos povos puderam ser preservados mesmo no tempo em que ainda não havia a escrita. De geração em geração, o conhecimento era passado, tendo como resultado um rico mosaico de culturas. Por meio de uma linguagem da fantasia e do irreal, os contos de tradição oral despertam o imaginário e nos permitem experimentar novas experiências. Gislayne Avelar de Matos, exímia contadora de histórias, nos leva a conhecer um pouco acerca dessa arte, que tem crescido e vem sendo admirada em todo o mundo.

No rabo do fogão

Estar diante do contador e ouvir sobre as histórias é como pensar na possibilidade da existência de um trem para o irreal; ao ouvi-las, sem perceber, você já desembarcou na estação mais próxima e não tem a menor pressa para ir embora. Com muita simpatia e bom humor, Gislayne relata que seu interesse por contos vem desde a infância, quando sentava no “rabo do fogão” para ouvir as lendárias histórias contadas por seu avô. “Ele contava na cozinha, na beira do fogão, e a gente ficava escutando até na hora de dormir. Meu avô tinha uma predileção por aquelas histórias de assombração, de arrastar correntes, de coruja. As pessoas, naquela época, não precisavam aprender essas coisas que hoje a gente ensina pros contadores de histórias. Se tinha uma lenha mais verde que estourava, ele dizia pra lenha: ‘Não, cê não tava lá não, cê não pode dar palpite. Na minha história cê não vai dar palpite, porque cê não viu’. E a gente tinha certeza de que ele conversava com as lenhas.”

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Em sua família, existiu a procura de um tesouro através de um mapa herdado do tio-avô que mexeu com o imaginário de todos da Fazenda de Fidalgo, local em que ela costumava passar as férias, e durou grande parte de sua infância. “Nas férias de julho, os meus tios e o meu avô saíam de casa, no entardecer, afinal, não se procura tesouros de dia.  Eles voltavam lá pela meia noite, meia noite e pouco, imundos de terra. Assentava, vó deixava aquela boa mesa de café preparada, aquele café que era quase um chá e não tirava o sono de ninguém, e muita rosca, muito bolo, muita broa, muita quitanda. Eles contavam como é que tinha sido à procura do tesouro, e aconteciam coisas assim... bezerro que latia, cachorro que era maior que um bezerro, galo que cantava fora de hora, vozes estranhas, vultos. Acontecia de tudo.” Hoje, a maior recordação da contadora daqueles momentos é o aconchego, o comum, a emoção de poder ouvir a mesma história por diversas vezes e não se cansar. O contato com o mundo “faz de conta” fez com que a linha divisória entre a realidade e o fantástico, que permeou toda a sua infância, fosse muito tênue.

O despertar na França

No ano de 1989, Gislayne Matos mudou-se para a França para aperfeiçoar-se em psicologia. Optou por fazer um curso oferecido na René Descartes, setor da Sorbonne responsável pela área. “Um dia, uma colega de curso me convidou para ver um contador de histórias. Eu não sabia o que era e, quando cheguei, havia uma contadora maravilhosa contando a história de Salomão e da rainha de Sabah. Eu fiquei completamente fascinada por aquilo, não consegui dormir por uma semana de tanta excitação, e decidi: ‘O resto da minha vida eu quero fazer isso’. Percebi que, o que meu avô fazia no rabo do fogão, realizava-se da mesma maneira, lá nos teatros franceses”.

Ao final de sua especialização, Gislayne começou a trabalhar com contos e dedicou-se à pesquisa nessa área. Passou a trabalhar na Associação em Interferências Culturais, na França, onde  desenvolviam a prevenção ao racismo e à xenofobia colocando em contato diversas culturas diferentes, promovendo atividades artísticas, como a contação de histórias, exposições de arte, shows de música e feira de comidas típicas. “Tudo era feito de maneira integrada, era quase como fazer uma visita àquele país ou região”. Coordenando esses programas, Gislayne teve a oportunidade de conhecer contadores de todo o mundo.

A aventura humana no conto levada às empresas

O conto é um observatório da experiência humana e de sua sabedoria, tendo funções educativas, sociais e psicológicas. Gislayne trabalha com clássicos do mundo inteiro, incluindo contos sufis, zen, tibetanos e russos, que utilizam frases como ‘era uma vez, há muito tempo atrás’, ‘conta-se que certa vez um homem’, ‘houve certa vez uma princesa’. Essa fórmula antiga, que pode parecer sem sentido, é bem mais poderosa do que se imagina. Ao se utilizar dessas expressões, o contador ativa o hemisfério direito do nosso cérebro que, por ser o da poesia, da arte, do pensamento holístico e o que trabalha com metáforas, não coloca nenhuma resistência para que desfrutemos das histórias. “À medida que fazemos isso, os contos, que são muito delicados, vão entrando como água, que atinge as partes mais difíceis das rochas. Um dia, você está vivendo uma situação, um conto cai na sua cabeça e você se lembra de que aquele herói viveu a mesma coisa e que ele teve uma saída para essa situação. Isso já me aconteceu várias vezes.”

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A arte de contar histórias consiste em uma tradição muito antiga, datada de anos antes de Cristo, e reporta-se às origens da sociedade humana como uma das primeiras manifestações culturais do homem, sendo mantida por vários povos. A narrativa oral das vivências de heróis fictícios é capaz de criar laços sociais, nutrindo o inconsciente coletivo através de uma linguagem fantasiosa e relativamente dramatizada.

Os contos e a arte de contar histórias têm sido utilizados por Gislayne para trabalhar com empresas e escolas as questões mais difíceis de serem assimiladas e discutidas nesses ambientes tão distintos. Debruçando-se sobre as especificidades de cada um, escolhe as histórias e a linguagem que estimula o imaginário para trabalhar temas complicados com leveza. Um dos exemplos foi o trabalho desenvolvido no Banco Mercantil do Brasil. “Por possuir uma linguagem que estimula o imaginário, a empresa tem a oportunidade de adquirir outra forma de pensar acerca das questões que envolvem o trabalho, as relações interpessoais e a postura dos funcionários de todos os cargos. Quando abordadas de forma direta e muito conceitual, essas questões são mais difíceis de serem trabalhadas e assimiladas. Através dos contos, pode-se passar os conceitos que forem desejáveis de uma maneira mais sutil. O objetivo desse trabalho nas empresas é ajudá-las a melhorar a qualidade das relações entre equipes e seus profissionais.”

Já o trabalho realizado em duas escolas de Santa Luzia, em parceria com a Açoforja, empresa do setor siderúrgico situada na cidade, aponta outras dimensões que podem ser abordadas. “Os professores reclamavam constantemente de que os alunos não tinham organização, não eram articulados, não os escutavam e a produção textual não era de qualidade. Após a etapa de diagnóstico, foi feito um trabalho de formação com todos os funcionários da escola, desde os diretores até as cantineiras, de modo que, eram realizadas apresentações no pátio a cada 15 dias. O comportamento das crianças mudou perceptivelmente, inclusive a escrita, que passou a ser recheada de idéias. Hoje, as próprias crianças realizam as contações e os recontos, dando vida até mesmo aos personagens criados por elas mesmas”, explicou.

O contador, as histórias e as personagens

O contador é habitado por uma infinidade de personagens que carregam consigo suas histórias. Numa apresentação, o seu ritmo depende diretamente de como a platéia está reagindo à história, por isso a necessidade de que a luz fique bem acesa, para que ele possa enxergar o olho das pessoas e interpretar as suas reações. O artista pode mudar o texto e criar coisas novas, dependendo da necessidade do momento. Apesar de não ser nenhum dos personagens, ele vai reproduzir o pensamento de cada um deles, entregar toda a sua capacidade de interpretação ao público, utilizar-se de vozes e expressões corporais, sempre voltando ao lugar de narrador como testemunha do ocorrido.

“Primeiramente trabalhamos o tema 'Da letra à voz', já que, atualmente, a grande pesquisa do contador é nos livros, na escrita que foi reunida por folcloristas durante os anos, cabendo àquele tirar as histórias dessa linguagem e retorná-la para a corrente da oralidade. Um contador não decora o conto, mas aprende a sua estrutura e, para desenvolver o ofício de contar, aprende a se apropriar disso através dos códigos da oralidade, que são diferentes do código da leitura. A segunda etapa é o trabalho com os gestos, que recebe muito auxílio do teatro na questão da espontaneidade, do contato com a expressão e o seu próprio gestual. Posteriormente, vem a fala do contador, trabalhando aplicadamente a questão da voz. Por último, trabalhamos o estilo pessoal, analisando cada pessoa para detectar onde é que, no seu corpo, há um foco maior. Ao final, o aluno entende que o que nós chamamos de ‘palavra do contador de histórias’ não é a fala ou a voz, mas corpo, expressão, olhar, entonação, ritmo, silêncio, improvisação."

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Apesar do curso ser focado na tradição oral, há quem julgue que essa linha de contos é relativamente menor, dada sua origem popular, e considera o conto literário algo mais erudito. Para Gislayne, tratam-se de coisas totalmente diferentes. Enquanto o conto de tradição oral trabalha com o imaginário, o literário lida com a literatura, estimulando áreas diferentes e apontando para situações igualmente distintas. “O conto de tradição oral é o ideal para o contador de histórias, porque a sua arte é a de criar na cena da performance. Se eu vou trabalhar um conto literário, por exemplo, de Clarice Lispector, não posso ficar inventando. Ela já fez o que tinha que fazer, e a literatura é preciosa. Ela fez para ler, fez para ser lido, e o tempo da leitura é diferente do tempo da escuta. A relação com a leitura é uma relação muito íntima”.

A importância da tradição oral

Em diversos estudos acerca da vida humana na Terra, a chamada oralidade dos povos serviu, de forma significativa, como base para a realização de pesquisas. Segundo historiadores contemporâneos, as transformações pelas quais o ser humano passou são facilmente percebidas por meio de sua tradição oral. O mundo atual prega a felicidade constante. Se o indivíduo não for um vencedor, não tiver muito sucesso, não for muito jovem e bonito, não há lugar para ele. Diante da quantidade de parâmetros que existem hoje para a exclusão do ser humano, Gislayne encontra nos contos um meio de resistência. “As histórias vão dizer que, se você quiser realmente viver, vai ter que ralar e entrar em buracos muito profundos de você mesmo. Esses são os processos iniciáticos que os contos nos propõem, nos ensinam e são aqueles momentos em que o nosso herói vai passar completamente na solidão para matar seus monstros. A gente tem que aprender a lidar com os nossos monstros”.

A contadora vê, em seu trabalho, uma resposta existencial para essas questões contemporâneas e, de alguma forma, um antídoto para os venenos da atualidade. Para ela, de tudo que a humanidade perdeu com sua evolução, a inocência representa o maior dano. Ainda que seja confundida por diversas vezes com a ingenuidade, nas histórias, a criança é o inocente e, o ingênuo, o tolo. O mundo perdeu o seu olhar de inocência para as coisas e esta é a ferramenta que está mais próxima da verdade, que retira os véus e a revela. “Os contos são uma forma de ajudar o homem a pensar na sua própria condição, uma possibilidade de nos levar para um espaço de devaneio, de poesia, que nos tira dessa realidade massacrante e nos leva a pensar que pode ser diferente.”

Quem é Gislayne Matos

Com formação em educação pela Faculdade de Educação da UFMG, graduação em Pedagogia pela FUMEC-BH, especialização em terapia familiar sistêmica pela PUC-MG e formação em arte-terapia e arte-educação pelo INECAT (Institut National d´Expression, de Création, d´Arte ET de Therapie - Paris) na França, Gislayne realiza um trabalho magnífico acerca dos contos de tradição oral. Tomando os contos como o eixo principal de seus trabalhos, a contadora escreve livros, realiza oficinas, participa de uma série de projetos da área cultural e, claro, conta histórias para públicos de todas as idades. Destaque para o Ateliê “Convivendo com a Arte” ao lado de Cecília Caram que, desde 1994, investe na  formação de novos contadores e realiza pesquisas sobre contos da tradição oral e o seu leque de funções. Através dessa iniciativa, Gislayne desenvolveu a série “Noite de Contos”, realizada por muitos anos na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Além disso, é autora do livro “A Palavra Contada do Contador de Histórias” e, em parceria com a pedagoga africana Inno Sorsy, escreveu “O Ofício do Contador de Histórias”, ambos da editora Martins Fontes. Além das oficinas e outros cursos rápidos, Gislayne é coordenadora acadêmica de um curso de pós-graduação lato sensu no IEC (Instituto de Educação Continuada) da PUC-MINAS, “Arte e educação da oralidade à escrita”, em que se trabalha desde a palavra na sua configuração oral até na leitura e na escrita.

Para falar com Gislayne Matos, ligue para (31)3221-0760 ou envie um e-mail para contato@convivendo.com.br.

 

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